Olivier Douliery/AFP
Olivier Douliery/AFP

Análise: Os EUA podem precisar mesmo de uma batalha

Trump não foi boa escolha para a necessária refundação do país; para isso ocorrer, talvez seja necessário mais combate político, não menos

Ross Douthat*, The New York Times

27 de setembro de 2020 | 03h30

Na breve janela entre a morte de Ruth Bader Ginsburg e o anúncio de que republicanos pretendiam nomear a sucessora antes da eleição de novembro, autores falaram em uma grande barganha, na qual senadores republicanos e democratas concordariam em recuar nas hostilidades, trocando uma promessa republicana de não confirmar um substituto antes da eleição por uma promessa democrata de não sobrecarregar o tribunal caso Joe Biden vença.

O objetivo dessas propostas era estabilizante, manter o equilíbrio da corte como estava antes da morte de Ruth – ou seja, 5 a 4 em favor dos nomeados pelos republicanos, com divisões mais complicadas caso a caso. As pessoas que propuseram essas ideias eram, em geral, conservadores opostos à reeleição de Donald Trump, como eu. Assim sendo, sei como pensam e, nas horas que se seguiram à morte de Ginsburg e antes do bombardeio de reações nas redes sociais, eu também pensava: um assento na Suprema Corte não vale o preço de ver a república desabar.

Mas acordei no dia seguinte pensando diferentemente. Sob certos aspectos, a política americana precisa de estabilização, bom senso, calma. Sob certos aspectos, o país precisa de um presidente que tente presidir o país, em vez de rasgar todas as normas da decência, tratar metade do país como sua inimiga e deslegitimar uma eleição americana por medo de não vencê-la. Mas, sob outros aspectos, foram exatamente os impasses, uma “estabilidade” criada pelo bloqueio e pela disfunção, que enlouqueceu os debates, tornou possível o trumpismo e fez da histeria a norma.

No plano retórico, o universo dos noticiários da TV a cabo e das redes sociais, há gasolina suficiente para cada incêndio. Mas, no plano das políticas públicas, no qual juízes, legisladores e eleitores interagem, talvez seja preciso vivenciar algo parecido com um tratamento de choque.

A melhor coisa a respeito da vitória de Trump em 2016 foi o fato de isso ter esmagado brevemente essas certezas, provando que consultores políticos não sabiam metade do que pensavam saber, demonstrando que eleitores indecisos ainda poderiam ser descobertos e desfazendo mapas cuidadosamente calculados para o colégio eleitoral. Se Trump tivesse aprofundado isso em sua presidência, se tivesse tentado atrair mais eleitores, desafiado as ortodoxias republicanas e tentado construir uma maioria, teria mostrado que muitos dos céticos estavam errados em relação a ele.

O fato de o presidente ter quebrado normas de forma frequentemente destrutiva ou sem sentido não significa que toda a escalada política esteja destinada a polarizar ainda mais o país. Isso apenas diz que, em se tratando do quanto os EUA precisam de um sistema político reconfigurado, novos alinhamentos políticos e uma transformação na relação entre os três poderes, Trump foi o nome errado para a tarefa de refundação.

Mas, em si, essa tarefa continua essencial. As normas que funcionaram para a política americana de meados do século 20 claramente não funcionam mais, com o sistema de três poderes decaindo em um estranho híbrido executivo-judicial, com um Congresso enfraquecido que serve para aprovar orçamentos e indicados a vagas no Judiciário.

As disputas em relação a uma corte demasiadamente poderosa e um Senado em impasse vão prosseguir até chegar a algum tipo de conclusão transformadora. É razoável desejar que isso ocorra logo, e ver que tipo de república nos aguarda do outro lado.

Parece que sou um conservador pessimista. Mas, pensando que os EUA estão decadentes e estagnados, com uma política demasiadamente estática, acabei me sentindo um pouco mais otimista em relação à capacidade de resiliência do país do que praticamente todas as pessoas que conheço. Sejam os liberais que esperam uma ditadura trumpista ou os conservadores preocupados com uma tirania do politicamente correto, passando por observadores nem lá e nem cá, que temem a secessão, a crise constitucional e o caos civil.

Não é que eu não enxergue aquilo que os preocupa – acho que Trump é perigoso, prefiro não viver sob uma ditadura do discurso politicamente correto, e reconheço que a profundidades das divisões entre os americanos representa um risco. Mas alguns desses problemas refletem uma crescente ausência de combate político, e não o seu excesso. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

* É COLUNISTA E AUTOR DE ‘THE DECADENT SOCIETY’

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