JAE C. HONG/AP
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Análise: Os planos de Biden para a América Latina

Eleito, o democrata deve subverter a posição política que foi adotada durante o governo do presidente Donald Trump para a região

Ernesto Londoño*, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 05h00

O ex-vice-presidente Joe Biden admite que tinha uma posição contrária na Casa Branca de Obama. Durante os anos finais da presidência do democrata, quando o governo estava preocupado com o arsenal nuclear da Coreia do Norte, a beligerância russa na Ucrânia e as guerras no Oriente Médio, Biden defendeu que a situação mais complexa a ser resolvida estava mais próxima, ou seja, a violência e a pobreza que levava um grande número de migrantes, muitos deles crianças, a fugirem da América Central.

Era um problema difícil, mas que os Estados Unidos conseguiriam, disse ele em seu livro de memórias, Promise Me, Dad (Prometa-me, pai, em tradução livre). “De todos os locais onde há crises no mundo, acredito que a América Central constitui a melhor oportunidade”, escreveu.

Biden, que se propunha a solucionar os problemas da América Latina, estabeleceu relações com líderes centro-americanos e batalhou para convencer o Congresso a aprovar em 2015 um pacote de ajuda de US$ 750 milhões para a região.

Com base em sua experiência na América Central, Biden e sua equipe de assessores formularam planos para a região que repudiam o enfoque agressivo do presidente Trump e ao mesmo tempo são uma tentativa de ressuscitar as iniciativas da era Obama.

O foco de Trump na região foi frear o fluxo de imigrantes e drogas usando um esquema de policiamento severo e ameaçando impor sofrimento a seus vizinhos. Em uma das medidas mais contenciosas que adotou, imigrantes foram separados dos filhos na fronteira e hoje não é possível localizar os pais de 545 crianças, segundo processos em andamento nos tribunais.

Biden e sua equipe de especialistas, entre eles imigrantes da América Latina, afirmam que adotarão uma abordagem mais ampla para o problema da imigração e para a região. E resolverão a questão da pobreza e da violência, que são as causas da migração e da instabilidade, retomando uma ofensiva contra a corrupção e investindo na criação de empregos e em uma melhor governança.

E em uma região onde ele sabe que os EUA há muito tempo são vistos como “país que tem uma política de intimidação para países menores”, como escreveu ele em seu livro, uma Casa Branca sob o seu comando trabalhará usando mais a persuasão do que a imposição, disseram vários conselheiros de Biden em entrevistas. “O ex-vice-presidente acredita fundamentalmente que os EUA devem agir com base no respeito mútuo e uma responsabilidade compartilhada”, afirmou Jake Sullivan, conselheiro de política externa de Biden.

Como ponto de partida, ele deverá propor um pacote de ajuda de US$ 4 bilhões para a América Central com a finalidade de solucionar as causas que levam à imigração ilegal e ajudar a neutralizar um problema tão controvertido que pode destruir a carreira política e a credibilidade de um político.

E também, de acordo com os assessores, um governo Biden buscará compromissos na região com o objetivo de frear o aquecimento global, um imperativo que já gerou antagonismos por parte do governo do Brasil, um dos atores mais relevantes no campo da política ambiental. E existe também o desejo de retomar a campanha anticorrupção que desencadeou terremotos políticos em todas as Américas a partir de 2014, mas ficou estagnada nos últimos anos.

Para os críticos, os esforços do governo Obama para ser visto como conciliador e pragmático o fez perder influência. Juan Cruz, um funcionário veterano da inteligência que foi o principal articulador político de Trump para a América Latina no Conselho de Segurança Nacional, de maio de 2017 a setembro de 2018, afirmou que a passividade do governo Obama permitiu à China ampliar parcerias comerciais, diplomáticas e militares que representam uma ameaça estratégica de longo prazo para os EUA.

Em um governo Biden, afirmam os assessores, os EUA aposentariam novamente a Doutrina Monroe, política adotada no século 19 com base na qual Washington estabelecia que as Américas eram sua esfera exclusiva de influência e tentativas de potências estrangeiras para intervir seriam consideradas um ato hostil.

O governo Trump alarmou muitos na América Latina quando ressuscitou essa doutrina em 2018 para frear as incursões comerciais e diplomáticas da China na região. E com essa finalidade ele lançou uma iniciativa, Crescimento nas Américas, para estimular os investimentos dos EUA. Mas a iniciativa não tem avançado.

Juan Gonzalez, que trabalhou na Casa Branca durante a presidência de Obama e que assessora Biden em temas ligados à América Latina, disse que o governo Trump realizou muito pouco na região, pois a via como uma fonte de migrantes indesejados e através do prisma dos blocos muito disputados dos eleitores latinos na Flórida.

John Ullyot, um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, defendeu as iniciativas do governo na América Latina. “Trump demonstrou um compromisso histórico com a região e sua liderança no combate às drogas, na promoção dos direitos humanos e no combate dos efeitos negativos da covid-19”.

Em 2019, Trump suspendeu uma boa parte da ajuda destinada à América Central que Biden conseguira aprovar no Congresso. O esforço do governo para desbancar o líder autocrático da Venezuela, Nicolás Maduro, reconhecendo o opositor Juan Guaidó como o presidente legítimo foi apoiado por muitos líderes mundiais. Mas as sanções impostas pelos EUA para derrubar o chavista fracassaram, mesmo com o país mergulhado cada vez mais na ruína econômica.

Um assunto que, aparentemente, Biden está inclinado a ser implacável é o da mudança climática. Durante o primeiro debate presidencial ele propôs criar um fundo internacional de US$ 20 bilhões para preservar a Amazônia brasileira e afirmou que o governo conservador do Brasil enfrentará “consequências econômicas”, se não reduzir o desmatamento.

O presidente Jair Bolsonaro, que cultivou relações estreitas de amizade com Trump reagiu indignado, dizendo num comunicado que “a nossa soberania não é negociável”.

Sullivan, o assessor de política externa de Biden, afirmou que o seu governo procurará trabalhar colaborativamente com o Brasil, mas a relação entre os dois líderes provavelmente seria mais tensa. “Biden não poupará as palavras quando tiver de desafiar Bolsonaro em questões relacionadas à degradação ambiental, à corrupção e outros problemas com os quais o presidente do Brasil vem se defrontando.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CHEFE DA SUCURSAL DO NEW YORK TIMES NO BRASIL

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