Jason Andrew/The New York Times
Jason Andrew/The New York Times

Análise: Os riscos do novo mandato

Biden terá de enfrentar uma polarização política, a ameaça de extremistas no país e a disputa geopolítica entre EUA e China

Carlos Poggio, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 05h00

Os EUA são a república democrática com o maior número de presidentes assassinados no cargo. Foram quatro desde o final da Guerra Civil, de Abraham Lincoln a John Kennedy. O número poderia ser maior se a tentativa de assassinato que perfurou o pulmão de Ronald Reagan em 1981 fosse bem-sucedida.

Dado esse histórico, Joe Biden tem razões para se preocupar. O país deixado por Donald Trump encontra-se em níveis elevados de polarização política, agitação social e questionamento das instituições básicas da democracia, como a imprensa, o Congresso e o próprio sistema de votação. Graças à retórica irresponsável vinda diretamente da Casa Branca, Biden será visto por milhões de americanos como um presidente ilegítimo, um usurpador do “verdadeiro” vencedor das eleições. O universo paralelo criado pelo presidente derrotado mostrou a sua cara na invasão ao Capitólio e continuará a existir depois de 20 de janeiro.

O fato de que a preocupação com a segurança de Biden tem sido um tema central, deixa claro que o primeiro desafio do novo presidente é no front doméstico. Não foi a China nem o Estado Islâmico que levou uma turba desenfreada a invadir o parlamento americano. A democracia nos EUA vem sendo corroída por dentro, com incentivos partindo diretamente do topo.

Ainda que Trump não tenha ligação direta com grupos supremacistas brancos, a percepção de que havia um aliado na Casa Branca pode eventualmente ter levado a uma menor inclinação desses grupos em usar a força. Como vimos durante a cerimônia de confirmação da vitória de Biden, a iminência de ver seu líder perder o poder retirou qualquer restrição nesse sentido. Com Trump fora, crescem as chances de que esses grupos recorram mais frequentemente à violência.

Ao contrário do que um observador do início do século poderia concluir, a principal ameaça à segurança dos EUA não é o terrorismo perpetrado por grupos estrangeiros, mas por grupos domésticos. Um estudo recente apontou que 67% dos ataques terroristas nos EUA em 2020 foram cometidos por grupos de extrema direita, 20% por grupos de extrema esquerda e 7% por grupos de inspiração jihadista. Claramente, o perigo não se esconde nas cavernas do Afeganistão.

Biden vai precisar utilizar toda sua alegada habilidade política, fruto de décadas em Washington, para lidar com essa ameaça. É possível que as grotescas cenas da invasão ao Capitólio, ao ilustrar para todo o país os perigos de se negligenciar grupos extremistas internos, tenha facilitado o caminho para o novo presidente.

Do ponto de vista externo, o principal desafio de Biden é lidar com o tema central das relações internacionais do século 21: a disputa geopolítica entre EUA e China. Trump, com sua abordagem contábil das relações internacionais, via essa relação como uma mera disputa comercial. Trata-se, porém, de um desafio muito maior: um rearranjo estrutural do sistema internacional, com a possibilidade de a China ultrapassar os EUA como a principal potência global.

Com sua predileção por líderes autoritários, Trump elogiava Xi Jinping com frequência. Mostrou apoio quando o presidente chinês alterou a Constituição para retirar limites à reeleição. Evitou criticá-lo durante os protestos de Hong Kong e, no início de 2020, teceu elogios a ele no combate à pandemia. Essas posições levaram a fortes críticas por parte de Biden, que pretende trazer para a agenda um tema sensível aos chineses e que foi negligenciado por Trump: os direitos humanos. Isso tende a criar mais zonas de atrito com os chineses e aprofundar as fissuras entre as duas potências.

Para enfrentar esse desafio, Biden deve enterrar a abordagem “America alone” de Trump, e reconstruir o arco de alianças internacionais enfraquecido por seu antecessor para tentar conter a China por vias multilaterais.

Biden tem pela frente a tarefa de encarar o mais formidável rival geopolítico dos EUA em décadas, ao mesmo tempo em que deverá lidar com inimigos internos que ameaçam as estruturas elementares da democracia americana. Não terá vida fácil.

DOUTOR EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS ESPECIALISTA EM EUA E PROFESSOR NA FAAP

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