Carlos Barria/Reuters
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Análise: Para os republicanos todos são culpados, menos o presidente 

Apesar de toda a discussão sobre a complexidade da controvérsia em torno das conversas do presidente Donald Trump com o presidente da Ucrânia, a realidade é bastante simples

Philip Bump / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2019 | 06h00

Apesar de toda a discussão sobre a complexidade da controvérsia em torno das conversas do presidente Donald Trump com o presidente da Ucrânia, a realidade é bastante simples. Trump, de acordo com reportagem do Post e do Wall Street Journal, pressionou repetidamente o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, empossado em maio, para investigar o ex-vice-presidente Joe Biden e seu filho Hunter.

Logo após Trump colocar essa pressão sobre o presidente ucraniano, seu governo suspendeu a ajuda militar à Ucrânia que havia sido aprovada pelo Congresso, só dando continuidade a ela depois que um delator da comunidade de inteligência entrou com uma queixa aparentemente focada na conversa de Trump com o presidente da Ucrânia.

Em pouco tempo, os aliados de Trump - até agora bem treinados em rejeitar preocupações sobre sua presidência - entraram em ação. Em uma série de entrevistas na televisão e no rádio, eles identificaram a verdadeira transgressão no caso, culpando uma grande série de pessoas e organizações em um esforço para subestimar ou apagar perguntas sobre Trump.

Joe Biden

Biden tem sido o alvo mais comum dos defensores de Trump e do próprio Trump. A maneira como essas defesas são apresentadas, porém, varia.

Na manhã de domingo, o secretário de Estado, Mike Pompeo, apareceu no Face the Nation, da CBS News. Pompeo, um firme defensor de seu chefe, sugeriu que a situação não era realmente complicada: Biden fez algo errado.

O problema com essa teoria? O problema central da teoria do erro de Biden é a falta de provas de que Biden tenha feito algo errado. Embora seja fácil ver como as demandas de Biden sobre o promotor ucraniano possam ser vistas como um esforço para ajudar seu filho, não há evidências de que o papel de Hunter Biden tenha sido a motivação para a demissão, de que Biden tenha agido sozinho ao fazer a demanda, que ele sabia de uma investigação ou mesmo que existia uma investigação sobre a empresa. Em vez de reescrever a análise da situação por parte dos nossos verificadores de fatos, vamos apenas indicar o artigo.

E notaremos que defender um promotor que tem maior probabilidade de combater duramente a corrupção pareceria uma escolha estranha. 

Hunter Biden é o verdadeiro malfeitor

O secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, marchou ousadamente para um campo minado ao conversar com Jake Tapper da CNN no domingo.

“O que considero inapropriado é o fato de o vice-presidente Biden, na época, ter feito negócios muito significativos na Ucrânia”, disse Mnuchin sobre a controvérsia. “Da minha parte, considero isso preocupante. E, para mim, talvez seja esse o problema que deva ser mais investigado.”

O problema com essa teoria? Embora certamente seja justo questionar a adequação do filho de um vice-presidente em parceria com uma empresa estrangeira, também há alguma hipocrisia nessas críticas, nesse caso. E, como acima, não há evidências de que o papel de Hunter Biden tenha motivado as exigências de Biden.

A Ucrânia é o verdadeiro malfeitor

Trump e seus aliados têm repetidamente apontado a Ucrânia e a política ucraniana para defender o presidente desde que ele assumiu o cargo. À medida que surgiam perguntas sobre as interações da campanha de Trump de 2016 com participantes russos, a equipe de Trump tentou gerar uma teoria compensatória de que a Ucrânia estava trabalhando para dar um incentivo a Hillary Clinton.

Em entrevista ao apresentador de rádio conservador Hugh Hewitt, na segunda-feira, o senador Lindsey Graham, republicano, sugeriu que o papel da Ucrânia deveria ser ampla e atentamente examinado.

O problema com essa teoria? As teorias sobre as tentativas da Ucrânia de influenciar a política dos EUA ou as eleições de 2016 têm demonstrado consistentemente que lhes falta mérito.

A teoria de que a Ucrânia estava “despejando informações” em 2016 se concentra em dois incidentes. Em um deles, um contratado do Comitê Nacional Democrata procurou ajuda de pessoas da Embaixada da Ucrânia para se informar sobre o trabalho do então gerente de campanha de Trump, Paul Manafort, naquele país. No outro, evidências de que Manafort havia recebido pagamentos secretos de um partido político pró-russo foram divulgadas por uma organização ucraniana em agosto de 2016, levando à sua demissão da campanha.

Em nenhum dos casos há evidências de um esforço de cima para baixo da Ucrânia para ajudar Clinton. Ambos se concentram nos esforços para revelar informações sobre Manafort, cujos pagamentos por seu trabalho para a Ucrânia levaram a condenações por lavagem de dinheiro e fraude. Ele agora está na prisão.

O denunciante é o verdadeiro malfeitor

Essa história chamou a atenção nacional depois que o governo Trump tentou impedir o Congresso de ter acesso à denúncia original de um informante dentro da comunidade de inteligência. Refletindo meses de ataques aos agentes do FBI que investigaram as interações da campanha de Trump com a Rússia, os aliados de Trump lançaram o denunciante como um “espião” do “estado profundo” (o estado dentro do estado) que se comportou de maneira desonrosa ao trazer a história à tona.

O problema com essa teoria? Mesmo que o denunciante fosse a própria Hillary Clinton, isso não mudaria o conteúdo da conversa que Trump teve com Zelensky.

A mídia é o verdadeiro malfeitor

Em um evento no Texas no fim de semana, o senador John Cornyn, republicano do Texas, identificou quem ele considera seu próprio culpado na situação: os repórteres cobrindo a história.

“Estou um pouco preocupado com o fato de que aparentemente alguns dos relatórios iniciais vieram de alguém que não tinha conhecimento de primeira mão, e isso meio que se espalhou como um incêndio”, disse Cornyn sobre a história. “Muita especulação. Prefiro esperar até que tenhamos acesso às informações reais para fazer um julgamento.”

O problema com essa teoria? A maneira mais simples de prejudicar as reportagens da mídia chamando-as de incorretas ou excessivamente apressadas é divulgar a queixa do denunciante e a transcrição da ligação de Zelensky, para que a reportagem possa ser comparada com a realidade. Até agora, o governo não o fez.

Não havia nada de errado, afinal!

Esse é o ângulo adotado por Trump. No domingo, ele afirmou que a ligação com Zelensky foi uma “conversa bela, calorosa e agradável", na qual ele não pressionou Zelensky. Mais tarde, ele tuitou “notícias de última hora” para esse efeito, virando as coisas de volta para Biden mais uma vez.

O problema com essa teoria? O público americano está sendo chamado a decidir em quem acreditar, em Trump ou nas reportagens da imprensa. A afirmação de Trump de que nada de impróprio aconteceu depende, por enquanto, de aceitar sua palavra sobre a da mídia e de nossas fontes. Essa é uma grande aposta para Trump. / TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO

 

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