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Análise: Para que serve um chanceler?

No Brasil, Ernesto Araújo cai como uma luva para a política externa beligerante do presidente Jair Bolsonaro. Ou melhor, para a não política externa

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 05h00

A emocionante posse de Joe Biden e Kamala Harris dispara uma pergunta que não quer calar no Brasil: para que serve um chanceler, em qualquer país, de qualquer região, que vive numa guerra de nervos com a China e agora também com os Estados Unidos, as duas maiores potências econômicas do mundo? A resposta óbvia seria que não serve para nada, mas depende... No Brasil, o chanceler Ernesto Araújo cai como uma luva para a política externa beligerante do presidente Jair Bolsonaro. Ou melhor, para a não política externa.

E, neste momento de pandemia, aumento de casos, nova cepa do coronavírus e falta de vacinas, há uma segunda questão: para que serve um chanceler que não tem interlocução com a própria China e com a Índia, os dois maiores fornecedores de vacinas e insumos farmacêuticos do mundo? Para nada? Depende. Pode ser perfeitamente adequado quando o próprio presidente nega a pandemia, desdenha das mortes e dá de ombros para a vacina.

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Bolsonaro, porém, não tem alternativa. Ou dá um cavalo de pau na política externa e muda Araújo e sua turma ou vai ter muito problema com a era Biden. Se, com Donald Trump, Bolsonaro deu muito e o Brasil não recebeu nada, política e comercialmente, a expectativa é a de que, com Biden, a pressão por democracia, direitos humanos e meio ambiente vá disparar.

Nos dois primeiros anos, Bolsonaro e Araújo se esmeraram em espancar os principais parceiros brasileiros, a partir de China, Argentina, França, Alemanha, Chile e mundo árabe, no pressuposto de que Trump bastava. Assim, o Brasil perdeu o que tinha e não ganhou o que não tinha. Os parceiros se descolaram, os EUA não contribuíram em nada e ainda tiraram vantagem dos devaneios ideológicos juvenis de Bolsonaro. Aliás, dos Bolsonaros.

No fim, Trump se vai e o Brasil fica com o selo de pária internacional – que Araújo, de certa forma, até comemora. Bolsonaro vai ficar aguardando, sentado, que Trump cumpra a promessa de “voltar de alguma forma” e o (ainda) embaixador em Washington, Nestor Forster, diz à GloboNews que “será um desafio para o governo Biden perceber as mudanças que houve na sociedade, no panorama e no governo brasileiro”. A declaração causou furor em diferentes grupos de diplomatas: “Coitado do Biden, não vai dormir esta noite!”, ironizou um embaixador da “ativa”.

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A especialidade do presidente é usar bodes expiatórios para executar as próprias políticas estapafúrdias. O general Eduardo Pazuello apanha pela incúria no combate à pandemia, Ricardo Salles é alvo até do Ministério Público pelo desmonte no Meio Ambiente e Ernesto Araújo é o para-raios para o desastre da política externa. Mas todo mundo sabe, principalmente os militares do Planalto, que não adianta só trocá-los. Eles têm chefe. É Bolsonaro quem tem bons motivos para não dormir, nem nesta nem nas próximas muitas noites.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO

JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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