Brendan Smialowski / AFP
Brendan Smialowski / AFP

Análise: Para Trump, processo de impeachment pode ter resultado positivo

Presidente americano adora uma boa briga e o processo de julgamento político conduzido pelos democratas na Câmara é o equivalente aos Jogos Olímpicos dos confrontos em Washington

Sebastian Smith / AFP, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2019 | 12h00

Nada é pior para um presidente dos Estados Unidos do que ser submetido a um julgamento político, a não ser que ele se chame Donald Trump

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Sem dúvida o fato de se tornar o quarto mandatário na história do país julgado no Congresso é uma lástima do ponto de vista pessoal. O magnata, e antiga estrela de reality shows, é obcecado por sua imagem, mais do que qualquer outro líder que já passou pela Casa Branca. Seu nome é literalmente uma marca que equivale a milhões de dólares em todo o mundo.

Mas, por outro lado, o republicano adora uma boa briga. E o processo de impeachment é equivalente aos Jogos Olímpicos dos confrontos em Washington.

“Este momento é para uma pessoa como ele”, disse Rich Hanley, professor de comunicações da universidade de Quinnipiac.

A expectativa é de que os democratas da Câmara votem a favor de sua destituição por abuso de poder e obstrução do Congresso nesta quarta-feira. Depois, e como o presidente sabe muito bem, seu Partido Republicano, que controla o Senado, votará por sua absolvição.

O mais certo é que o resultado seja tão previsível como um desses combates absurdos de luta livre que Trump sempre apreciou. O que configura um cenário perfeito para esse homem do espetáculo.

Em primeiro lugar, ele pode demonizar seus oponentes, usar termos como “traição”, “ladrão, “louco” e “doente”. E depois transformar todo o caso em um elemento de campanha com vistas à sua reeleição em 2020.

Imune ao escândalo

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Impeachment nos EUA já atingiu três presidentes, mas nenhum foi deposto

Os democratas Bill Clinton, em 1998, e Andrew Johnson, em 1868 foram absolvidos pelo Senado; em 1974, Nixon renunciou antes da votação

Desde Andrew Johnson, que foi acusado em 1868, nenhum presidente desfrutou exatamente da visibilidade no processo de impeachment. Richard Nixon renunciou antes de ser acusado, ao passo que Bill Clinton lutou veementemente para evitar ser condenado pelo Senado, em 1999.

Mas Trump, veterano em escândalos, está pronto para ser colocado à prova. Afinal, ele já saiu ileso de acusações de abuso sexual e outros comportamentos indevidos por mais de uma dezena de mulheres ao longo dos anos. Resistiu a uma investigação que durou dois anos por um procurador especial que tentou determinar se ele teve ajuda de agentes russos quando da eleição para presidente em 2016 de maneira intencional ou não. E descartou acusações de uso de seu cargo em benefício do seu império imobiliário, incluindo a de alojar pessoal da Força Aérea em seu campo de golfe na Escócia e o vice-presidente Mike Pence em seu resort na Irlanda.

Diariamente ele insulta seus oponentes, diz palavrões em público e conta tantas mentiras e exageros que os verificadores de dados mal conseguem acompanhar seu ritmo. E a lista continua. Como ele próprio afirmou em 2016, “poderia parar na Quinta Avenida, atirar contra uma pessoa e não perder nenhum eleitor”.

Seu próprio drama

O julgamento político de Clinton, decorrente de sua aventura sexual com uma estagiária da Casa Branca, foi especialmente desagradável: um programa de terror televisionado que manchou para sempre a reputação do popular presidente democrata.

Mas tudo isso parece algo quase inocente comparado com o processo focado em Trump, intensificado pelo Twitter, uma cobertura de TV politizada e um presidente ansioso para protagonizar, produzir e dirigir seu próprio drama.

Longe de se acovardar, Trump realiza comícios para mobilizar sua base, denunciando o processo como uma “caça às bruxas” contra ele. No Twitter manifesta sua indignação dezenas, às vezes centenas, de vezes por dia.

“Nixon e Clinton se mantiveram em grande parte à margem. Trump interferiu em diversas ocasiões”, disse Allan Lichtman, professor de História na American University.

É uma tática de alto risco e grandes ganhos que se encaixa no enfoque de Trump com relação a Washington. Depois de desobedecer a todas as regras, agora ele vem agindo da mesma maneira no caso do impeachment, disse Lichtman, deixando seu partido sem outra opção, a não ser defendê-lo até o fim.

“A verdadeira razão pela qual os republicanos precisam defender Trump é que a única coisa que lhes resta é Donald Trump”.

Washington pode estar uma confusão, mas Trump resiste. Segundo a última pesquisa realizada pela Quinnipiac ele tem 43% de aprovação.

Além disso, se esta seria a pior pontuação para um presidente nesta etapa de um governo, em muitas décadas, é o melhor porcentual pessoal de Trump.

"(O julgamento político) é algo muito triste para o país", disse ele na semana passada. “Mas parece ser muito bom para mim politicamente”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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