Jessica Taylor/EFE/EPA
Jessica Taylor/EFE/EPA

Análise: Paralelos entre dois céticos

Presidente americano, Donald Trump, e premiê britânico, Boris Johnson, compartilham a tendência a declarações ousadas, desrespeitando as regras e assumindo uma abordagem com cara de campanha

Mark Landler*, The New York Times

13 de outubro de 2020 | 05h00

O presidente Donald Trump recebeu um telefonema bem-intencionado na semana passada de um dos poucos líderes estrangeiros que sabe pelo o que ele está passando: o primeiro-ministro Boris Johnson, do Reino Unido, sobrevivente de um sério confronto com o coronavírus.

Trump aproveitou a ligação como mais uma oportunidade para se gabar de uma rápida recuperação da covid-19. Mas ele não deve encontrar consolo na experiência de Johnson. E não apenas porque o primeiro-ministro acabou em uma UTI.

Seis meses depois de receber alta, Johnson ainda não se livrou das perguntas sobre os efeitos da doença em sua energia, concentração e espírito. Sua saúde é uma fonte de especulação sussurrada nos corredores do Parlamento, alvo de perguntas de repórteres e suposições sinistras de colunistas, para quem a doença se tornou um sintoma de seu declínio político mais amplo. 

Os paralelos entre Johnson e Trump são frequentemente exagerados, e há pouca coisa na convalescença do primeiro-ministro que se compare ao espetáculo diário de um presidente que anuncia uma volta ao normal e agenda comícios de campanha uma semana depois de ter sido transportado em helicóptero para o hospital, com dificuldade para respirar. Ainda assim, os dois compartilham a tendência a declarações ousadas, desrespeitando as regras e assumindo uma abordagem com cara de campanha.

Apesar de seus esforços, Johnson nunca recuperou o entusiasmo público que o impulsionou a uma vitória eleitoral esmagadora em dezembro. Na última terça-feira, 6, falando na conferência anual de seu Partido Conservador, ele tentou novamente esclarecer as questões sobre os efeitos persistentes da covid-19, a doença causada pelo vírus. “Li um monte de besteiras recentemente sobre como meu próprio ataque de covid de alguma forma roubou meu mojo”, disse.

“Seu discurso na conferência do partido foi uma chance de sacudir a sensação de que ele é metade do homem que costumava ser, que perdeu seu élan e brio, que agora é um pobre destroço trêmulo”, disse Andrew Gimson, um dos biógrafos de Johnson.

Trump e Johnson adotaram argumentos políticos ao receber alta do hospital. Trump, falou sobre as qualidades de cura milagrosa dos medicamentos com os quais foi tratado e prometeu distribuí-los gratuitamente a todos americanos. Johnson, discorreu sobre os milagres que o trataram – os médicos e enfermeiras do Serviço Nacional de Saúde, talvez a instituição mais reverenciada do país.

Mas Johnson, ao contrário de Trump, emergiu de sua doença com uma nova visão da letalidade do vírus e de sua própria vulnerabilidade. Ele falou comovido sobre como as enfermeiras da UTI se revezavam para dar oxigênio a ele, algo que Trump, que também recebeu oxigênio suplementar, não mencionou. Johnson também se tornou um proponente de medidas de proteção, postura que o colocou em desacordo não só com Trump, mas também com membros de seu partido, preocupados com os danos que os bloqueios causam à economia.

Em seu discurso, o premiê fez o que pôde para virar a página, anunciando ambiciosos investimentos em turbinas eólicas e moinhos de vento, sob o slogan “Build Back Better”, que vem a ser também o slogan dos empregos e plano de recuperação do ex-vice-presidente Joe Biden, candidato democrata. 

O índice de aprovação de Johnson, que atingiu um pico de 66% quando ele saiu da UTI, caiu para 35%, de acordo com o grupo de pesquisa YouGov. As primeiras pesquisas sugerem que Trump pode nem mesmo obter aquela onda transitória de simpatia com sua doença. Ao contrário de Johnson, ele enfrentará eleitores em menos de um mês. 

* CHEFIA A SUCURSAL DO ‘NYT’ EM LONDRES. É AUTOR DE ‘ALTER EGOS’ E MEMBRO DO THINK TANK CONSELHO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.