Saul Loeb / AP
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Análise: Pedido para que China investigue adversário pode se tornar o mais problemático para Trump

Pedido para que Pequim investigue filho de Joe Biden foi o mais escancarado feito até agora pelo presidente americano

Aaron Blake / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 20h54

WASHINGTON - O presidente americano, Donald Trump, apelou nesta quinta-feira, 3, a mais um país para tomar medidas contra opositores. Até onde se sabe, é a terceira vez ele que faz isso.

Na primeira vez, quando pediu à Rússia para encontrar “e-mails perdidos” de Hillary Clinton, ele disse que era só brincadeira. Na segunda, quando pediu ao presidente da Ucrânia que fizesse duas outras investigações políticas inconvenientes, só ficamos sabendo depois que seu governo tentou abafar o assunto.

Agora, na terceira vez – que envolve a China -, Trump simplesmente admitiu o pedido. Essa poderá ser a mais problemática requisição do gênero feita por Trump, por uma série de razões.   

O presidente pediu publicamente que a China deveria lançar uma investigação sobre o trabalho de Hunter Biden no país. “A China deveria investigar os Bidens porque o que ocorreu lá é tão ruim quanto o que ocorreu na Ucrânia”, afirmou.

Ele acrescentou que não discutiu o assunto com o presidente chinês, Xi Jinping, mas poderia. “É algo a se pensar, porque estou certo de que o presidente Xi não gosta de ficar sob escrutínio quando bilhões de dólares foram retirados de seu país por um cara expulso da Marinha”, disse Trump. “Depois de expulso da Marinha, de repente, ele começou a ganhar bilhões de dólares. Sabem como se chama isso? Suborno”, acrescentou.

Não está claro o que exatamente Trump alegou aqui, nem se ele se referiu anteriormente à China quando falou dos Bidens. Mas, presumivelmente, esse pedido, mais do que o feito à Ucrânia, evoca mais diretamente corrupção.

A principal razão para isso é a guerra comercial que Trump está travando com a China.

Trump certamente tinha – e tem – influência sobre a Ucrânia, tanto pelas centenas de milhões de dólares em ajuda americana ao país quanto pela ânsia do presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, de ter um encontro pessoal com ele. Não se falou, no telefonema de 25 de julho entre os dois presidentes, em uma explícita  troca de favores. Mas não é  difícil de se imaginar que Zelenski tenha entendido assim.   

Pouco antes de pedir a investigação à Ucrânia, Trump enfatizou como os EUA são “tão generosos com a Ucrânia”. Então, pediu “um favor” ao país. Trump também teria acenado a Zelinski com o tão esperado encontro na Casa Branca após o pesidente ucraniano ter dado a entender a ele que faria a investigação solicitada.

A relação EUA-China não é influenciada por esse desequilíbrio de poder, no qual um homem poderoso como Trump tenta fazer o presidente de um pequeno país curvar-se a sua vontade. Mas Trump tem uma influência significativa sobre a China em consequência da guerra comercial desfechada por ele.

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Os lances mais provocadores nessa guerra foram de Trump, que deu início ao conflito e está mais ansioso em ver a guerra subir de tom. Nesta altura, a China poderia, pela lógica, estar acreditando que futuras escaladas no conflito estariam ligadas à decisão chinesa de adotar ou não as ações sugeridas por Trump. Assim, qualquer decisão futura pode ser vista sob essa ótica.

De fato, pouco depois das declarações, Trump falou explicitamente da influência americana sobre a China. “Temos muitas opções quanto à China, mas se ela não fizer o que queremos, também temos muito poder”, disse ele. Trinta segundos depois, o presidente falou sobre as investigações sugeridas. A China, presumivelmente, deve estar pensando se, na cabeça de Trump, as duas coisas não estão relacionadas.

A situação, porém pode se complicar ainda mais se surgir uma solução para a guerra comercial antes da eleição de 2020. Assessores de Trump têm aconselhado o presidente a chegar a algum tipo de acordo até lá, por medo do resultado na eleição de novembro. Vamos considerar, por um momento, que a China investigue os Bidens (e fiquemos sabendo) e Trump então chegue a um acordo com a China. Como saberíamos se um favor político pessoal não fez Trump aceitar um acordo mais favorável à China do que estaria pensando em aceitar?

Existem muitos “ses” no caso. Não sabemos nem se a China estaria disposta a fazer o jogo (a propósito, ainda não vimos sinais de que a Ucrânia tenha de fato dado a Trump o que ele queria).

Mas, mesmo deixando de lado a guerra a comercial, continua havendo o fato de um presidente dos EUA sugerir a outro país que faça algo claramente motivado por sua tentativa de reeleição. Trump tem argumentado – embora de modo implausível – que seus esforços para fazer a Ucrânia iniciar uma investigação têm a ver com eliminar a corrupção no país.

Seu pedido, desta vez público, de uma nova investigação envolvendo os Bidens deixa claro aonde realmente ele quer chegar.

Os republicanos emudeceram sobre condenar o pedido de Trump à Ucrânia. Mas, para seu pesar, eles agora veem o presidente fazendo em público o mesmo tipo de coisa – e, de quebra, complicando uma guerra comercial. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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