AP Photo/Butch Dill
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Análise: Perda da maioria na Câmara deixa republicanos mais dependentes de Trump

Apesar do revés parcial na eleição de meio de mandato nos EUA, líder republicano se destaca como uma força ainda mais dominante no partido do que dois anos atrás, quando venceu disputa pela Casa Branca

James Oliphant / Reuters, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2018 | 11h27

WASHINGTON - A perda do controle da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos deixará o Partido Republicano com uma bancada parlamentar ainda mais conservadora, mais ligada ao presidente Donald Trump e mais unida em torno da retórica provocadora e da agenda radical do mandatário.

Embora os republicanos moderados que permanecerão na Câmara possam ver o resultado como um veredicto sobre a estratégia de Trump de se dedicar incansavelmente ao tema da imigração ilegal na reta final da campanha, eles serão uma pequena minoria.

De acordo com a apuração parcial da votação, os democratas já conquistaram 219 das 435 cadeiras da Câmara contra 193 do republicanos - são necessárias 218 para a maioria. No senado, porém, o partido de Trump já tem 51 vagas - o mínimo necessário para controlar a Casa - contra 45 dos democratas.

Muitos republicanos que perderam a vaga na Câmara são moderados de distritos majoritariamente suburbanos que tentaram manter alguma distância de Trump e sua retórica, mas mesmo assim foram atingidos pela forma de fazer política do magnata - o que deixa um centro reduzido dominado por conservadores de áreas rurais cujo eleitorado é essencialmente pró-Trump.

Em resumo, Trump continuará sendo Trump. Ainda que alguns republicanos possam culpá-lo pelas derrotas de terça-feira, é improvável que se rebelem, especialmente levando em conta que o partido manteve o comando do Senado.

Nos últimos dois anos o presidente se mostrou pouco inclinado a mudar seu estilo agressivo ou se tornar conciliador. Ele sabe que continua sendo, sem sombra de dúvida, a figura mais popular de seu partido.

Agora Trump começa para valer sua campanha de reeleição, durante a qual fará todos os esforços para congregar sua base de apoiadores firmes.

Isso significa que, mesmo diante de uma oposição democrata mais intensa, Trump deve postular sua agenda de “A América Primeiro”, que prioriza questões delicadas como a imigração ilegal e o protecionismo comercial. Isso, por sua vez, aprofundará a reformulação dramática de um partido que foi definido pelo conservadorismo fiscal, social e nacional durante décadas.

Saber que os democratas da Câmara não liberarão fundos para um muro na fronteira com o México, por exemplo, não impedirá Trump de continuar voltando ao assunto - ele pode até achar politicamente mais eficaz transformar seus opositores na Casa em vilões.

Os republicanos que continuarem na Câmara também terão pouco interesse em cooperar com a nova maioria democrata, o que concentrará o poder republicano no Congresso no Senado e deixará o governo praticamente travado.

“Uma Câmara democrata significa que, se o presidente quiser que as coisas andem, terá que trabalhar com o outro lado”, disse Jason McGrath, pesquisador eleitoral democrata de Chicago. “Ele não mostrou nenhuma inclinação para isso, mas será interessante ver se este é um momento em que irá querer governar, ao invés de só marcar pontos.”

A mudança tem implicações de longo prazo para os republicanos em distritos que se tornaram democratas na terça-feira, e dá aos democratas uma oportunidade para capitalizar avanços em subúrbios antes convictamente republicanos nos quais o nível de escolaridade e a renda estão acima da média nacional - e onde o ceticismo em relação a Trump é profundo.

O partido já enfrentou dificuldades tentando ampliar a base de apoiadores de classe média, brancos e evangélicos de Trump, perdendo terreno entre mulheres, eleitores suburbanos e com diploma universitário e mostrando pouca habilidade para conquistar eleitores jovens e de minorias.

Isso quase certamente continuará se uma representação parlamentar em declínio abrir caminho para uma fidelidade ainda maior a Trump.

No Senado, democratas de centro nos Estados em que Trump venceu em 2016, como Joe Donnelly em Indiana e Heidi Heitkamp na Dakota do Norte, foram substituídos por republicanos conservadores que podem atribuir suas vitórias ao presidente.

Além disso, os republicanos do Senado que eram mais críticos de Trump, Bob Corker e Jeff Flake, estão se aposentando. O mesmo vale para Paul Ryan, presidente republicano da Câmara que em certas ocasiões divergiu do tom do presidente, quando não de suas políticas.

Tudo isso faz de Trump uma força ainda mais dominante no partido do que era dois anos atrás. E Trump, que fez muita campanha em Estados rurais, pode apontar para as vitórias no Senado como provas de que ainda consegue levar seus eleitores às urnas. / REUTERS

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