Gonzalo Fuentes/Reuters
Gonzalo Fuentes/Reuters

Análise: Por que o mundo se importa

A revolta nas cidades americanas atraiu a atenção mundial tanto por razões conhecidas quanto por novas

Ishaan Tharoor / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 03h30

Os Estados Unidos são cada vez mais uma nação voltada para ela mesma. Enquanto os protestos contra a violência policial e o racismo sistemático agitam dezenas de cidades americanas, o ministro de Relações Exteriores do Reino Unido, Dominic Raab, disse que a crise ultrapassou a linguagem usada quando se discute conflitos intratáveis em qualquer parte do mundo. “Queremos ver a redução das tensões entre os americanos”, ele disse à BBC no domingo.

Raab não está sozinho. Um porta-voz da Comissão Europeia enviou um e-mail à imprensa dizendo que Bruxelas espera que “todas as questões relacionadas aos protestos sejam resolvidas pacificamente e com respeito às leis e aos direitos humanos”. 

Ontem, o ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, disse que os protestos são “compreensíveis e mais do que legitimados”. “Posso apenas manifestar minha esperança de que os protestos pacíficos não continuem a degenerar em violência, mas cada vez mais espero que esses protestos tenham um efeito nos EUA.”

A revolta nas cidades americanas atraiu a atenção mundial tanto por razões conhecidas quanto por novas. Em alguns casos, a fúria pela morte de George Floyd, um negro de 46 anos, por um policial branco em Minneapolis, intensificada pela divulgação em todo o mundo dos vídeos do incidente e dos subsequentes protestos – encorajou movimentos já existentes contra a violência racial e a discriminação contra minorias.

Na Austrália, onde manifestações de solidariedade estão previstas esta semana, a revolta dos EUA trouxe à tona as ações da polícia contra as há muito tempo marginalizadas comunidades indígenas – e em particular o incidente de 2015, quando David Dungay Jr., um aborígine de 26 anos, morreu enquanto estava sob custódia da polícia. 

“Estamos ultrajados com o que está acontecendo em Minneapolis, mas nós na Austrália precisamos permanecer unidos, pois eles podem realmente ver que há injustiça e racismo contra nosso povo”, disse Paul Francis-Silva, sobrinho de Dungay, à ABC New da Austrália.

Também na França, a morte de Floyd trouxe à lembrança o incidente de 2016 no qual Adama Traoré, um morador de 24 anos do subúrbio de Paris, morreu por asfixia após ser detido. O caso de Traoré criou, como disse meu amigo James McAuley na época, o próprio movimento Vidas Negras Importam da França. 

“Como não pensar no terrível sofrimento de Adama quando três policiais estavam em cima dele e ele repetia que não conseguia respirar”, postou um grupo de apoio na semana passada no Facebook. “Seu nome era George Floyd e, como Adama, morreu porque era negro.” 

Esse senso de solidariedade levou a protestos em Toronto, Berlim, Londres e outras cidades do Ocidente. “Pessoas do mundo todo entendem que suas lutas por direitos humanos, igualdade e justiça ficaram mais difíceis se elas foram derrotadas nos EUA, onde ‘eu tenho um sonho’ é um programa político real e universal”, disse Wolfgang Ischinger, ex-embaixador da Alemanha em Washington e presidente da Conferência de Segurança de Munique, à New Yorker.

“Esperamos que as demonstrações no mundo todo lembrem Washington que o poder de convencimento dos EUA é o que o diferencia de outras grandes potências – como China, Rússia e mesmo a Europa. Seria trágico para o governo Trump transformar essa grande oportunidade para os EUA em uma abdicação moral.”

Os protestos no mundo todo também destacaram a profunda antipatia pelo presidente Trump. 

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