Ariel Schalit/AP
Ariel Schalit/AP

Análise: Por que os israelenses terão de votar de novo?

A questão do serviço militar entre os ultraortodoxos impediu a formação de uma coalizão

Shmuel Rosner / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2019 | 05h00

Em abril, Binyamin Netanyahu venceu a eleição. Havia apenas um pequeno obstáculo: formar um governo – e ele não conseguiu. Na quarta-feira, seu prazo expirou. Sobrou uma opção: convocar os eleitores e começar tudo de novo. Como isso aconteceu? Para compreender a situação, precisamos voltar muitas décadas.

Em Israel, todos devem prestar serviço militar ou qualquer serviço público, mas um grupo está isento: os ultraortodoxos, que são 10% da população. Graças à alta taxa de nascimento, esse grupo dobra a cada dez anos. Quando a isenção foi estabelecida, em 1948, cerca de 400 se beneficiavam dela. Hoje, são 50 mil. Em 2065, um terço da população será ultraortodoxa.

Uma grande maioria considera isso injusto. A Suprema Corte também. Em 2017, ela declarou a isenção inconstitucional e exigiu uma nova lei. Desde então, o tribunal aceitou alguns atrasos, mas agora o prazo está no fim. O novo governo, quando formado, deve aprovar a lei. Se não o fizer, o tribunal pode anular o acordo e criar uma crise. E é este o problema.

No passado, muitos governos aceitaram deixar a questão de lado em troca do apoio ultraortodoxo. Então, uma pessoa decidiu arruinar o esquema: Avigdor Lieberman, líder do partido Yisrael Beitenu, que representa uma direita secular que não gosta dos religiosos. 

Por anos, ele aceitou compor alianças com os ultraortodoxos. Por que ele decidiu agir agora? Durante muito tempo, a esquerda tem sido associada a um processo de paz falido e às políticas de segurança frágeis. Em Israel, ela está em frangalhos. A última eleição foi disputada entre o Likud e um partido novo, de centro-direita, chamado Azul e Branco. Ou seja, não sobraram muitos esquerdistas para serem detestados. Talvez por isso Lieberman tenha mudado de estratégia. 

Os ultraortodoxos são mais detestados que os esquerdistas. E não só porque não prestam serviço militar, mas também porque sua participação na força de trabalho é pequena, eles pagam menos impostos e são diferentes: usam chapéus e vivem em bairros segregados. Ao sabotar a coalizão e provocar nova eleição, Lieberman propõe aos eleitores uma nova pergunta: quem eles odeiam mais, ultraortodoxos ou esquerdistas? Bibi aposta na esquerda. Lieberman, nos ultraortodoxos. Vamos ver se a estratégia será vitoriosa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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