Lawrence Bryant/Reuters
Lawrence Bryant/Reuters

Análise: Por que realizar um grande comício em Tulsa esta semana é um problema único

Longe de perder força antes da visita do presidente americano, coronavírus está chegando ao seu ápice na região

Philip Bump, The Washington Post

19 de junho de 2020 | 07h00

A assessora de imprensa da Casa Branca, Kayleigh McEnany, tem o que poderíamos chamar de jogada ensaiada contra os repórteres que ela usa quando são marcadas coletivas de imprensa, esporadicamente. Quando um jornalista faz uma pergunta chamando a atenção para algo que Kayleigh não tem interesse em explorar, ela mergulha em anotações preparadas à espera dela no púlpito e começa a bombardear a sala com anedotas vagamente relacionadas cujo objetivo seria reforçar algum tipo de defesa retórica do presidente Trump, o chefe dela.

Na quarta feira, isso significou desviar das perguntas a respeito da possibilidade de o comício do presidente planejado para o sábado em Tulsa colocaria os frequentadores em risco, dada a pandemia do coronavírus. Kayleigh consultou suas anotações: o problema não seria o fato de a mídia questionar o comício de Trump e, ao mesmo tempo, não questionar os grandes protestos em parte organizados pelo movimento Black Lives Matter? Ela escolheu alguns exemplos específicos de veículos jornalísticos cobrindo as  manifestações do BLM e em seguida citando preocupações de profissionais de saúde pública com o comício de Tulsa como se houvesse necessariamente um conflito entre ambas as coisas.

O Washington Post e outros jornais e sites cobriram o risco de disseminação do novo coronavírus nas manifestações recentes. Mas especialistas de saúde destacam que manifestações ao ar livre e um grande comício em ambiente fechado representam graus de risco muito diferentes. O fato de o vírus ser novo significa que não há muitos dados a respeito dele, mas parece que as multidões e o ato de falar alto aumentam o risco de disseminação, ao passo que em ambientes abertos ele parece se dissipar rapidamente. Isso significa que lotar um auditório - Trump gosta de dizer que seus comícios são lotados - com pessoas se misturando na mesma área fechada durante horas é provavelmente um risco maior do que uma marcha pública mais ou menos organizada.

Mas essa não é a única preocupação das autoridades de Tulsa.

A covid-19, doença causada pelo novo vírus, “está em Tulsa", disse o diretor do departamento de saúde da cidade, Bruce Dart, em entrevista no sábado. “Ele se transmite com muita eficiência. Gostaria que pudéssemos adiar esse evento para um momento em que o vírus não seja uma preocupação tão grande quanto agora.”

Talvez essa seja a maior preocupação. A média de novos casos do coronavírus nos sete dias mais recentes em Tulsa e no estado de Oklahoma alcançou novos patamares na terça. Longe de perder força antes da visita de Trump, o vírus está chegando ao seu ápice.

A Casa Branca tentou argumentar que a alta nos casos seria efeito de um maior número de testes realizados. Mas não é o caso de Oklahoma. Se compararmos a mudança na média diária de novos casos e testes concluídos deste 1.º de junho, vemos que o número de casos em Oklahoma aumentou rapidamente enquanto o número de testes concluídos por dia caiu.

Podemos comparar esse quadro às mudanças nos Estados Unidos e no estado de Nova York, onde ocorreram algumas grandes manifestações. A maioria desses protestos foi recente demais para que os eventuais novos casos de coronavírus apareçam nos números diários. Mas, em relação a 1.º de junho, o número de casos em Nova York estava caindo, e a média nacional se mantém estável, sendo que em ambos os casos o número de testes diários aumentou.

Esse é o padrão que as autoridades de saúde desejam ver. Especialmente por causa da demora na detecção dos casos. Com frequência, as novas infecções só são identificadas dias depois de terem ocorrido, o que significa que o número total de casos em Oklahoma e em Tulsa é maior do que os dados indicam.

Um comício no estado de Nova York também seria problemático, dada a combinação de multidão, espaço interno e duração do evento, mas ao menos o ritmo de disseminação do vírus ali está diminuindo, e não acelerando. Na terça feira, Nova York acrescentou 3,2 novos casos para cada 100.000 habitantes. Oklahoma acrescentou 5,8. Em Tulsa, o acréscimo proporcional foi de 11,7.

Independentemente de uma rede de notícias ter publicado ou não reportagens a respeito dos protestos do BLM menos de uma hora após publicar reportagens a respeito da segurança dos frequentadores do comício de Trump, esses são números preocupantes. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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