Craig Lassig/EFE/EPA
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Análise: por que Sanders tende a ser o rival de Trump

Bernie parece ser o único candidato narrando um mito de sucesso

David Brooks, The New York Times

22 de fevereiro de 2020 | 03h00

Os candidatos presidenciais de sucesso são aqueles que criam mitos. Eles fazem mais que contar uma história. Eles contam uma história que ajuda a compreender o momento atual, divide a população entre heróis e vilões, estabelece um desafio primordial e explica por que eles são a pessoa perfeita para enfrentá-lo.

Em 2016, Donald Trump criou um mito bem-sucedido: as elites das costas americanas são gananciosas e estúpidas, administraram mal o país, minaram valores e mudaram a face da sociedade americana. Não é um mito original: existe pelo menos desde as revoltas populistas da década de 1890. Mas é uma poderosa visão de um mundo do “nós contra eles”, que ressoa em muita gente.

Os seguidores de Trump fazem mais que acreditar nesse mito. Eles o habitam. O mito molda a maneira como eles veem o mundo, como colocam as pessoas nesta ou naquela categoria. Trump pode errar nos fatos, desde que acerte no mito. Pode fazer um milhão de coisas escandalosas, mas seus seguidores não enxergarão nada enquanto permanecerem inseridos nesse mito.

Bernie Sanders também está criando um mito de sucesso: as elites das corporações e de Wall Street são monstros vorazes que acumulam a riqueza do país e oprimem as famílias trabalhadoras. Também não é um mito original. Existe desde os movimentos sobre conflitos de classe de 1848. E também é uma visão de mundo do “nós contra eles”, que ressoa em muita gente.

Quando está dentro do mito de Sanders, você vê o mundo através das lentes de Bernie. Se você olhar para Mike Bloomberg através de uma determinada lente, verá um empreendedor de sucesso, que colocou sua capacidade de gestão a serviço do público e depois começou a doar sua riqueza para reduzir a violência armada e as mudanças climáticas. 

Se, por outro lado, você olhar para Bloomberg através das lentes de Bernie, verá um bilionário voraz que acumulou uma quantidade absurda de riquezas, virou um prefeito autoritário e tentou comprar sua rota para o poder. A mesma pessoa, duas lentes.

Minha impressão sobre o animado debate democrata de quarta-feira é que Sanders parece ser o único candidato narrando um mito de sucesso. Bloomberg, Joe Biden, Pete Buttigieg, Amy Klobuchar, todos apresentam bons argumentos, mas não organizaram sua visão de mundo em um mito simples e convincente. Você olha para eles, mas não vê o mundo pelos olhos deles.

Elizabeth Warren habita um mito sem expressá-lo claramente. Acontece que é o mito de Sanders. Seu desempenho na noite de quarta-feira foi taticamente brilhante e estrategicamente catastrófico. Seu ataque a Bloomberg se deu totalmente pelas lentes de Sanders. Seus ataques a Buttigieg e Klobuchar também se deram pelas lentes de Sanders. Através dessa lente, uma proposta de gasto maior é sempre melhor do que uma proposta de gasto menor. Warren fez uma linha auxiliar devastadoramente eficaz para Sanders, mas reforçou a visão de mundo dele, em vez de estabelecer a sua própria.

Nos últimos cinco anos, Sanders e seus colegas progressistas induziram grande parte do Partido Democrata a enxergar através das lentes de Sanders. É algo nítido, porque todo candidato naquele palco tinha as categorias e o equipamento mental para dissecar um bilionário como Bloomberg. Mas ninguém tinha as categorias ou os equipamentos mentais para derrubar um socialista como Sanders.

Sanders permanece intocado nesses debates porque os outros candidatos não têm uma plataforma mítica a partir da qual lançar um ataque. Dizer que seus planos custam muito é uma resposta patética para um mito de sucesso.

Passei grande parte desta temporada eleitoral longe dos comícios de campanha, entrevistando eleitores mergulhados em suas vidas normais. Nesta semana, por exemplo, estive em Compton, Watts e nos arredores de Los Angeles. A realidade que encontro todos os dias tem pouco a ver com as histórias de “nós contra eles” que Trump e Sanders estão contando.

Onde quer que eu vá, vejo sistemas que estão tentando resistir – sistemas escolares, sistemas habitacionais, estruturas familiares – em bairros que estão tentando lidar com a diversidade. Esses problemas não são causados por nenhum grupo de pessoas intencionalmente más. Eles existem porque é difícil viver em um período de transição econômica, tecnológica, demográfica e cultural. É difícil criar confiança social em meio à diversidade.

Onde quer que eu vá, vejo um processo que é o oposto dessa guerra de grupo contra grupo. O que vejo é união. São pessoas que se engajam localmente para reparar os sistemas de suas vidas. Vejo um grande desejo de solidariedade, um desejo de união e de fazer mudanças na prática.

Esses esforços de união são atrapalhados por sabotadores, que alimentam o ódio, o medo e contam histórias de aliados e inimigos. Esses esforços são atrapalhados por homens como Sanders e Trump, que nunca trabalharam dentro de um partido, nem se subordinaram a uma equipe – mágicos de um truque só. Tudo o que eles fazem é ficar no palanque.

No mito da união, os heróis têm características que Trump e Sanders não têm: mente aberta, flexibilidade, capacidade de escutar, capacidade de formar times, calor humano. Nesta saga, os líderes são medidos por sua habilidade de expandir as relações, não de cortá-las. O mito da união é um mito alternativo – que tem a vantagem de ser verdadeiro.

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