(Photo by Money SHARMA / AFP)
(Photo by Money SHARMA / AFP)

Análise: Premiê indiano foi pioneiro do novo populismo

Seu estilo acabou se repetindo em votações contra o establishment nos EUA, Europa e outros lugares

Adam Taylor / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2019 | 05h00

A marca do populismo de direita com matizes religiosos, que levou o Bharatiya Janata (BJP), de Narendra Modi, a uma vitória histórica nas eleições de 2014, acabou se repetindo em votações contra o establishment nos EUA, Europa e outros lugares.

Como observou o New York Times, muitas pessoas na Índia descrevem Modi como o “nosso Trump”, com orgulho ou desprezo. “Das grandes democracias a descambar para o populismo, a Índia foi a primeira”, escreveu o escritor Aatish Taseer, na revista Time, no início do mês.

Apesar das críticas, há poucos sinais de que essa guerra cultural global vai acabar. Nesta semana, a vitória do premiê australiano, Scott Morrison, combinada com o poder que deve aumentar de partidos contrários ao establishment nas eleições europeias, sugerem que essas forças estão crescendo.

O tempo de mandato de Modi, desde 2014, não representa um modelo positivo. Seus críticos destacam dois grandes problemas. Primeiro, embora ele tenha feito uma campanha se vangloriando de suas ideias econômicas, sua tentativa de tornar o país mais atrativo para os negócios fracassou. Segundo, seu governo teve como base uma ideologia nacionalista hindu, que rejeita o princípio secular no qual a Índia foi fundada.

Em 2018, a taxa de desemprego chegou a 6,1% na Índia, um recorde em 45 anos, com os jovens especialmente não conseguindo encontrar emprego estável. Os agricultores estão em péssima situação: milhares se suicidaram na última década. Sua medida para erradicar as cédulas de dinheiro, como parte de uma política de “desmonetização” anticorrupção, afetou a atividade econômica.

As dificuldades econômicas da Índia podem ser apenas uma parte dos problemas sociais mais amplos, exacerbados durante o primeiro mandato de Modi. Sem uma boa história econômica para contar, seu apoio se concentrou no nacionalismo hindu, que seus críticos tanto temem.

Em fevereiro, um atentado em Pulwama, região disputada da Caxemira, levou Modi a enviar aviões de combate para ataques dentro do Paquistão, provocando um impasse entre os dois vizinhos e rivais. Apesar de a Índia se sentir constrangida quando um avião foi derrubado e o piloto, capturado pelo Paquistão, a retórica dura de Modi reuniu a população em seu apoio – um forte contraste com seu principal rival, Rahul Gandhi.

Nesse clima, as tensões internas também estão fortes. Quase 200 milhões de muçulmanos vivem na Índia e as notícias de atos de violência aumentaram, incluindo linchamentos por parte de extremistas hindus contra muçulmanos. Modi denunciou a violência, mas os críticos dizem que era tarde demais. Na eleição, Modi nada fez para rechaçar os extremistas.

Sua política foi pioneira no contexto do populismo global, mas as lições que o premiê indiano transmite para o mundo preocupam. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA

 

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