Jonathan Ernst/Reuters
Jonathan Ernst/Reuters

Análise: Presidente contraria os cientistas e expõe seus eleitores

Donald Trump continua a subestimar a gravidade do coronavírus, declarando perante multidões de pessoas sem máscara que a doença está desaparecendo; o surto de novos casos nos Estados Unidos mostra que não é assim

Alexander Burns, The New York Times

30 de outubro de 2020 | 05h00

Com um imenso surto de novo casos varrendo o país, o presidente Donald Trump está encerrando sua campanha eleitoral pedindo ao eleitor que ignore as evidências de uma calamidade que se revelam diante de nossos olhos e confie na palavra dele, segundo a qual a doença já está desaparecendo enquanto ameaça à saúde e ao bem-estar econômico.

O presidente seguiu declarando perante grandes multidões de pessoas sem máscara que o vírus está desaparecendo, mesmo com o número de casos explodindo, uma alta nas fatalidades, uma queda no mercado de ações e um novo surto detectado entre os assessores do vice-presidente Mike Pence. Saltando de um estado para o outro, ele transformou a mensagem de que o país estaria “saindo da curva” em seu mantra pessoal.

Trump atacou governadores democratas e outras autoridades locais por manter em vigor as restrições recomendadas pela saúde pública, denunciando-as como limites desnecessários que afetam a economia. E, em momentos de autocomiseração, o presidente é visto descrevendo a pandemia como um obstáculo político colocado em seu caminho por um adversário conhecido.

“Com as notícias falsas, tudo é covid, covid, covid ", queixou-se Trump durante um comício em Omaha, Nebraska, na terça feira, repreendendo a mídia e apontando para a própria recuperação da doença para fazer pouco de sua gravidade: “Eu a contraí. E aqui estou, certo?”

Ainda naquele dia, Trump tinha ridicularizado a ideia segundo a qual o vírus estaria se espalhando rapidamente outra vez, dizendo falsamente a uma multidão em Lansing, Michigan, que a “alta nos casos” informada pela imprensa seria apenas um reflexo da política mais rigorosa de testes. O presidente de 74 anos falou no caso de seu filho adolescente, que foi diagnosticado com o vírus esse mês, para sugerir que muitos desses casos não trariam preocupação.

“Já repararam que eles não falam em ‘mortes’, eles falam em ‘casos’?” disse Trump. “Por exemplo, Barron Trump é um caso. Ficou com o nariz escorrendo. Espirrou. Só precisou de um lencinho de papel, e ficou bem. Mas é considerado um caso.”

Em se tratando de política, a abordagem do presidente equivale a uma tentativa digna de Obi-Wan de gesticular para os eleitores na esperança de convencê-los que não estão vendo diante dos próprios olhos uma pandemia que arrasa bairros e superlota hospitais. Sua determinação em diminuir uma crise contínua enquanto tema de campanha se tornou a decisão que define sua tentativa de se reeleger e o núcleo de suas mensagens na fase final da disputa.

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Há indícios consideráveis de que a estratégia não está funcionando. O mercado de ações, há muito o ponto focal dos esforços de Trump para animar a torcida, despencou mais de 900 pontos na quarta feira, sofrendo a pior queda em meses enquanto os investidores se davam conta das crescentes perturbações causadas pela pandemia. Pesquisas de opinião e entrevistas com o eleitorado mostram que a maioria não está inclinada a confiar na previsão otimista de Trump.

A descrição que Trump faz da doença não se baseia nos fatos, e sua teoria para combatê-la entra em conflito com as preferências de autoridades médicas em todos os níveis do governo. O país já teve mais de 8,8 milhões de casos do coronavírus, incluindo uma alta de 39% nos novos casos nos 14 dias mais recentes. Mais de 227 mil americanos morreram da doença.

Em Bullhead City, Arizona, na quarta feira, Trump prometeu aos eleitores que uma vacina estaria disponível “em breve", mas cientistas e empresas farmacêuticas dizem que não há nenhuma garantia disso. Usando uma expressão que se tornou quase um refrão para ele nos comícios, ele insistiu que o país estava “saindo da curva” do vírus.

Nos estados que Trump está visitando, a presença dele pode inspirar tanto ansiedade quanto excitação, com o eleitorado temendo o impacto de seus grandes comícios públicos.

Allison Drennan, eleitora independente de Gastonia, Carolina do Norte, disse que votaria no candidato democrata, Joe Biden, em parte por causa do fracasso de Trump na resposta ao coronavírus. Na semana passada, ela ficou pasma ao saber que Trump faria um comício na região, pois isso tinha o potencial de disseminar a doença.

“Me parece um grande erro", disse Allison, 29 anos, a respeito do comício, citando detalhes específicos a respeito do impacto local da. “Já temos 77 pessoas internadas com covid nos hospitais de Gastonia. Decidi manter o máximo possível de isolamento individual nas próximas duas semanas.”

Os números na Carolina do Norte dão razão à cautela dela. Ainda que o estado tenha conseguido conter a doença mais do que outros, a média de novos casos diários aumentou 13% nas duas semanas mais recentes. São mais de 266 mil casos no estado, que teve 4.269 mortes até a tarde de quarta feira.

Como tantos outros aspectos do estilo de liderança de Trump, sua forma de enxergar a pandemia encontrou um público entusiasmado entre uma minoria dos americanos. Uma pesquisa nacional publicada recentemente pelo New York Times revelou que quase 2 em cada 5 eleitores concordam com Trump quando ele afirma que o pior da crise já passou. A pressão do presidente pela reabertura total da economia encontra seus adeptos, pelo menos entre os eleitores que já o apoiam e permaneceram leais em meio aos numerosos escândalos pessoais e políticos dele, sua incompetência  e um julgamento de impeachment.

Mas as pesquisas de opinião mostram que um número muito maior de americanos está rejeitando a abordagem de Trump. No mesmo levantamento do Times, a maioria dos eleitores disse que o pior da pandemia ainda estava por vir, incluindo metade dos eleitores independentes e um quinto dos republicanos. 

Os eleitores disseram preferir Biden à Trump no comando da resposta à pandemia por uma diferença de 12 pontos percentuais. E 59% dos eleitores disseram defender a obrigatoriedade nacional do uso de máscaras, incluindo maiorias entre os eleitorados democrata e independente, e três em cada 10 republicanos.

Felix Vristow, 40 anos, da Filadélfia, disse acreditar que Trump foi desonesto em relação à doença. “Na minha visão, nosso líder mentiu para nós", disse Vristow, acrescentando, “Tivemos um número altíssimo de mortes, que poderiam ter sido evitadas se a situação fosse enfrentada antes e com mais sinceridade.”

Biden passou a campanha presidencial se apresentando a esses eleitores como uma alternativa responsável. Na tentativa de ser um modelo de bom comportamento e de proteger a própria saúde, Biden, 77 anos, manteve uma agenda de campanha mínima, sem realizar comícios e viajando muito menos do que seria de se esperar de um candidato típico à presidência. Na quarta feira, em vez de visitar um estado disputado, ele fez comentários a partir do seu estado natal, Delaware, rechaçando aquilo que descreveu como “declaração de rendição perante o vírus” feita por Trump.

Igualmente notável é o fato de, nos dias mais recentes, funcionários do alto escalão do governo terem reagido à retórica do presidente quanto ao coronavírus e as falsas alegações dele segundo as quais o número de casos só está aumentando porque os testes se intensificaram. Trump falou frequentemente nos testes como uma espécie de problema de relações públicas, com gráficos em linhas que acompanham a trajetória do vírus e pintam um quadro que o prejudica.

Em entrevista à televisão na quarta feira, o almirante Brett Giroir, encarregado do governo para supervisionar os testes, rechaçou a caracterização da pandemia feita por Trump sem citar nominalmente o presidente. De acordo com ele, a alta na contagem de casos “não é apenas resultado de uma política de testes mais rigorosa”.

“É verdade que estamos identificando mais casos, mas o número de infectados está realmente subindo", disse Giroir, insistindo para que os americanos usassem máscaras e evitassem aglomerações em ambientes fechados.

Em um tipo diferente de fuga do discurso otimista de Trump, o chefe de gabinete da Casa Branca, Mark Meadows, reconheceu na TV no fim de semana passado que o governo “não vai controlar a pandemia” — comentário que Biden reproduziu como confirmação da desistência de Trump. / Tradução de Augusto Calil

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