Simon Dawson/ Reuters
Simon Dawson/ Reuters

Análise: Presidente dos EUA não salvará o Reino Unido do Brexit

Trump não é benevolente com aliados, mas alguém que gosta de bancar o valentão

Brian Klaas / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2019 | 05h00

Antes mesmo de chegar a Londres, Donald Trump já insultava britânicos proeminentes. Mas o mais preocupante é o fato de o Reino Unido estar flertando com o suicídio econômico porque alguns britânicos ingenuamente acreditam que podem confiar no presidente dos EUA. Esse risco vem da equivocada esperança de que os ataques de Trump à UE e seus elogios a vigaristas como Nigel Farage signifiquem que ele será um investidor bondoso que resgatará o Reino Unido da autoinfligida bagunça do Brexit. É uma ilusão perigosa. 

Muitos políticos britânicos venderam o mito de que a saída da UE sem nenhum acordo será ótima – em parte porque Trump fará um rápido e generoso acordo comercial que compensará o fim do acesso ao mercado europeu. Essa convicção tem como base uma lamentável ideia sobre quem é Trump. Mas, quanto mais o povo acredita nela, mais os britânicos caminharão para o precipício, esperando que Trump interrompa a queda. 

O sofrido compromisso que Theresa May negociou com Bruxelas deixou quase todo mundo insatisfeito. Ele foi assassinado por membros do próprio partido de May. Agora, o Partido Conservador elegerá um novo líder. O escolhido será o próximo premiê. Segundo pesquisas, a maioria é favorável ao Brexit sem acordo. Isso vai contra o que deseja maioria dos eleitores, mas eles não palpitam na eleição do líder conservador. 

Com este cenário cada vez mais provável, os que defendem o Brexit estão cada vez mais dependentes de Trump. Eles precisam dele para demonstrar que a saída da UE abrirá caminho para acordos melhores com outros países. E Trump empurrou o Reino Unido para mais perto desse ponto sem volta ao incentivar os britânicos a “fugir” de Bruxelas. À medida que o presidente pressiona por um Brexit sem acordo, economistas entendem que esse seria um dos maiores erros da história moderna. Avaliações do próprio governo britânico sugerem que a economia perderia 9% nos próximos 15 anos. 

Mas, se você não acredita que tal ato de automutilação seja uma possibilidade real, tente então explicar por que o governo vem estudando cenários catastróficos em um bunker nuclear – ao mesmo tempo em que se torna o maior comprador mundial de refrigeradores para estocar remédios.

Para reverter essas previsões alarmantes, políticos desonestos acenam para os eleitores com um lado positivo: o de que 330 milhões de americanos substituiriam 450 milhões de europeus como parceiros comerciais. Mas é apenas sonho, porque um rápido acordo com os EUA é impossível. O tempo médio entre o início e a conclusão de um tratado é de 45 meses – quase quatro anos. Mesmo que Trump acelere as negociações, qualquer acordo morreria no Congresso, especialmente durante ano eleitoral. 

De qualquer modo, tudo isso é discutível, pois Trump não é benevolente com aliados, mas alguém que gosta de bancar o valentão. Apesar das tentativas de May de paparicá-lo, ele tarifou o aço e o alumínio britânicos. É difícil imaginar como alguém pode ser tolo o bastante para acreditar que ele estenderia a mão quando o Reino Unido estiver em uma pior posição de barganha após o Brexit. 

Quando Trump deixar o cargo, os EUA voltarão a se comportar como um aliado que compartilha valores. Mas, por enquanto, a Grã-Bretanha não deve tomar nenhuma decisão acreditando no mito de que o presidente americano seja o salvador da pátria. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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