Ruth Fremson/The New York Times
Ruth Fremson/The New York Times

Análise: Proibido virar à direita

Todos os especialistas nos dizem para não prestarmos atenção às pesquisas. Mas, ao que parece, Hillary Clinton deu um grande salto desde a convenção, superando o avanço de seu rival uma semana antes

Paul Krugman* / NYT, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2016 | 05h00

Todos os especialistas nos dizem para não prestarmos atenção às pesquisas. Mas, ao que parece, Hillary Clinton deu um grande salto desde a convenção, superando o avanço de seu rival uma semana antes. Melhor ainda, do ponto de vista dos democratas, a oscilação nas pesquisas parece estar provocando o que imaginávamos: Donald Trump entrou numa espiral de cretinices em que os absurdos que diz são cada vez mais agressivos e mais ridículos à medida que suas perspectivas eleitorais afundam.

Em consequência, alguns republicanos influentes não só estão se recusando a endossar a candidatura de Trump, mas declarando apoio a Hillary. E como ela deve responder a isso? A resposta óbvia, você imaginaria, é que ela deve continuar a agir como vem agindo – enfatizando como seu rival é inadequado para o cargo, deixando que seus aliados assinalem suas qualificações e continuando a defender um programa político de centro-esquerda moderado que seja uma continuação do adotado pelo presidente Obama.

Em primeiro lugar, vamos ser claros quanto à plataforma de Hillary. É um programa nitidamente progressista, mas dificilmente considerado radical. Estamos falando de impostos mais altos sobre a alta renda, mas de modo algum tão altos como os cobrados durante uma geração após a 2.ª Guerra; ampliação dos programas sociais, mas nada próximo dos adotados pelos Estados de bem-estar social da Europa; regras financeiras mais rígidas e mais ações no âmbito da mudança climática – mas estes não são temas que exigem urgência? E o programa não necessita ser mais “pró-crescimento”.

Não há nenhuma evidência de que reduções de impostos para os ricos e uma desregulamentação radical, como os da direita sugerem quando se referem a políticas “pró-crescimento”, têm algum efeito, ou que o fortalecimento dos programas sociais seja prejudicial. Durante a presidência de Bill Clinton, houve um boom maior do que no período de Ronald Reagan. Nos anos Obama, a criação de empregos foi muito maior do que na era Bush, mesmo antes do colapso financeiro.

A estratégia da direita para vender políticas que não são nem populares e nem bem-sucedidas fracassou completamente. E a resposta democrata seria adotar as mesmas políticas? Além disso, não podemos deixar de notar um padrão curioso nas recomendações de alguns autoproclamados centristas.

Quando os republicanos estavam em ascensão, os centristas insistiram para os democratas se adaptarem e ficarem mais à direita. Agora que os republicanos estão em dificuldade, esses mesmos centristas insistem para os democratas, de novo, se adaptarem, e se colocarem mais à direita. Engraçado como as coisas funcionam. Hillary e seu partido devem se manter firmes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA E PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA

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