EFE/EPA/BALAZS MOHAI HUNGARY OUT
EFE/EPA/BALAZS MOHAI HUNGARY OUT

Análise: Protestos na Hungria unem rivais de Viktor Orban

Em um movimento incomum da parte de partidos pequenos, um grupo de políticos tentou forçar no domingo a entrada e um estúdios de TV, enquanto transmitiam ao vivo os eventos pelas mídias sociais

O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2018 | 05h00

Em um movimento incomum da parte de partidos pequenos, um grupo de políticos tentou forçar no domingo a entrada e um estúdios de TV, enquanto transmitiam ao vivo os eventos pelas mídias sociais na Hungria. Os pontos que eles tentaram comunicar incluíam o pedido de rescisão das leis aprovadas dias antes, permitindo que os patrões peçam mais horas extras a trabalhadores e criando um tribunal superior sob supervisão do governo.

Os acontecimentos ressaltam a reação à crescente centralização de poder sob Viktor Orban. Eles também indicam exasperação por parte dos manifestantes e da oposição em sua incapacidade de exercer influência sobre a política. Os legisladores de Orban têm uma maioria de dois terços no Parlamento, o que lhes permite aprovar qualquer lei sem o apoio da oposição.

Antes dos protestos, o partido Fidesz, de Orban, tinha o mesmo nível de apoio que cerca de meia dúzia de partidos de oposição juntos. Um dos políticos da oposição, Akos Hadhazy, chamou a mídia estatal de “coração do sistema” para o que ele disse ser seu papel na “manipulação” da população.

Orban, que voltou ao poder em 2010, converteu a mídia estatal em um porta-voz do governo ao qual que raramente fornece tempo de transmissão equivalente aos pontos de vista da oposição. Complementá-lo é meta de Orban. Trata-se de um dos maiores impérios de mídia pró-governo da Europa, compreendendo centenas de pontos de venda comerciais trazidos sob um único guarda-chuva legal no mês passado que Orban isentou de verificações regulatórias.

O canal estatal de televisão M1 abriu seu boletim de notícias matutino ontem com seu tema favorito de imigração. Mais tarde, mencionou os protestos em Budapeste, mas se concentrou em suposta motivação ilegal ou violenta dos participantes. O site de notícias públicas hirado.hu inicialmente abriu com uma reportagem intitulada “Os protestos não têm uma verdadeira força motriz social”, antes de se voltar para a ameaça do terrorismo e do suposto papel do bilionário George Soros em manifestações na Europa Ocidental./ TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO




O primeiro-ministro da , , tem promovido numerosas leis impopulares que provocaram protestos em massa, alguns violentos. Mas, a menos que ele retroceda em sua política arriscada, ele corre o risco de perder seu poder.

Desde que o Partido Fidesz obteve maioria constitucional, em abril, e o instalou como primeiro-ministro pelo terceiro mandato consecutivo, Orban tem manobrado para reforçar seu controle do país. Nas últimas semanas, ele realizou um rápido ataque contra os últimos tópicos que ainda não estavam sob seu poder.

No fim do mês passado, mais de 400 meios de comunicação fundados ou comprados por aliados de Orban foram consolidados em uma organização sem fins lucrativos  chamada Imprensa Centro-Europeia e Fundação de Mídia. O premiê isentou seu grupo de fiscalização, alegando que ela é "estratégica".

No começo deste mês, a Universidade Centro-Europeia, fundada por George Soros, anunciou que poderia se mudar para Viena após anos de luta para tentar permanecer em Budapeste. E na semana passada o Parlamento aprovou uma lei tirando da Suprema Corte a autoridades sobre disputas administrativas - incluindo sobre eleições, corrupção e abusos policiais - e criou um órgão específico, comandado pelo ministro da Justiça, para lidar com essas questões.

Orban tratou os políticos, jornalistas e ativistas da oposição que protestaram contras essas medidas com desprezo. Orban sabe que eles não são numerosos ou determinados o suficiente para causar problemas. Mas, desta vez, ele pode ter cometido um erro tático: na semana passada, o Fidesz impôs novas leis trabalhistas, permitindo aos empregadores exigir até 400 horas extras por ano, em vez das atuais 250, e atrasar o pagamento delas por até três anos em vez de um.

A medida destina-se a aliviar a escassez de mão-de-obra do país, e os trabalhadores terão a opção de rejeitar as horas extras. Mas os sindicatos têm apontado que os empregadores têm capacidade suficiente para coagir os funcionários a concordar.

Cerca de 3.000 pessoas começaram a protestar contra as “leis escravistas” imediatamente após serem aprovadas em 12 de dezembro. Enquanto um grupo de legisladores da oposição tentava entrar na TV estatal no domingo, uma multidão entre 2.000 e 10.000, segundo estimativas diferentes, invadiu a estação de televisão em Budapeste.

Negados a fazer uma aparição diante das câmeras, os políticos fizeram um protesto. Uma transmissão ao vivo do Facebook de um deles sendo removido à força pela segurança se tornou viral. Os dois lados estão em um impasse - que está sendo transmitido ao vivo pelo membro do Parlamento Europeu Istvan Ujhelyi.

Nos últimos anos, os húngaros foram lentos em protestar e relativamente não-violentos quando o fazem. Mesmo após a queda do comunismo, o país viu menos protestos do que a Polônia ou a Alemanha Oriental. Quando os húngaros se zangam, porém, as autoridades têm dificuldade em acalmá-los.

Em 2014, Orban teve que desistir da imposição de um imposto pela internet após protestos persistentes. Há outro precedente mais preocupante para o político: em 2006, o centro de televisão estatal foi o palco dos protestos que quase derrubaram o governo do primeiro-ministro Ferenc Gyurcsany.

Esses protestos, desencadeados por uma gravação vazada na qual Gyurcsany admitiu que seu governo não tinha feito nada útil durante seu mandato de quatro anos, acabaram em violência quando os manifestantes invadiram o centro de TV para transmitir suas demandas. Embora Gyurcsany tenha se mantido no cargo até 2009, era apenas uma questão de tempo até que o Fidesz, então principal partido de oposição, assumisse o poder, o que aconteceu em 2010.

Orban foi bem-sucedido ao se defender de tentativas de autoridades da União Européia de restringir seus impulsos autoritários. Apesar de todas as críticas, o Fidesz continua a ser membro da maior facção do Parlamento Europeu, o Partido Popular Europeu, de centro-direita. Suprimir protestos internos contra leis que infringem diretamente a vida de cidadãos comuns é uma tarefa mais difícil, mesmo na relativamente dócil Hungria. Orban pode estar superestimando sua capacidade de lutar batalhas em várias frentes de uma só vez.

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