Análise: Protestos no Egito ainda não ameaçam Mubarak

Apesar disso, analista acredita que a situação é imprevisível e quase tudo pode acontecer.

Jon Leyne, BBC

27 de janeiro de 2011 | 19h24

Protestos ainda não mobilizam boa parte da sociedade egípcia

Milhares de pessoas têm participado das manifestações no Egito contra o governo do presidente Hosni Mubarak, no poder há 29 anos. Mas, até agora, não há sinais de que os protestos tenham ameaçado a posição do líder egípcio.

Na quarta-feira, o Ministério do Interior declarou que todas as demonstrações são consideradas ilegais, e a polícia agiu rapidamente para dispersar qualquer tipo de aglomeração.

Autoridades de segurança do país informaram que mil pessoas já foram presas. Apesar disso, os manifestantes se recusam a encerrar os protestos.

Houve confrontos envolvendo oposicionistas e policiais em várias cidades do Egito. Algumas das cenas mais violentas ocorreram em Suez, no leste, onde três manifestantes morreram na terça-feira.

Quando as autoridades se recusaram a liberar um dos corpos na quarta-feira, a multidão incendiou um prédio do governo.

Vida normal

Mesmo assim, até o momento, a vida parece continuar normalmente na maior parte do país.

A grande maioria dos egípcios está ocupada demais tentando sobreviver para se juntar aos protestos. Há uma sensação geral de insatisfação e decepção com o governo, mas provavelmente não há mais do que alguns milhares de pessoas expressando ativamente esta insatisfação. E isto pode dar alguma segurança ao governo.

Os protestos vêm ocorrendo sem um líder, convocados por meio de mensagens no Facebook ou Twitter.

Isso pode mudar, porém. Existe a expectativa de que eles sejam muito maiores e organizados nesta sexta-feira.

El-Baradei conta com o apoio da classe média do Egito

O movimento oposicionista banido Irmandade Muçulmana, deu seu apoio às manifestações, depois de permanecer dias sem oferecer seu respaldo oficial.

A Irmandade Muçulmana é o único movimento que realmente pode reunir multidões no país.

Além disso, o ex-chefe da agência de energia atômica da ONU e líder opositor, Mohamed El-Baradei, chegou ao Egito e prometeu participar dos protestos. Isto poderá dar alguma força aos protestos, mas o apoio a Baradei vem mais da classe média do que da grande maioria da população.

Governo

O governo, por sua vez, tem dado uma resposta muito familiar às manifestações, que é tratar um movimento de protesto político e social simplesmente como uma ameaça à segurança.

Os jornais egípcios desta quinta-feira estavam cheios de notícias sobre uma série de reuniões de emergência nos bastidores, enquanto o governo analisa a possibilidade de responder à crise com aumentos de salários e respondendo às muitas queixas dos manifestantes e egípcios comuns.

Isto poderá aliviar a pressão na camada mais pobre da sociedade, mas não vai satisfazer os jovens de classe média que estão tomando as ruas e cujas reclamações não são apenas econômicas.

Os egípcios geralmente falam que o país precisa de um sonho, uma visão. Mas, durante 30 anos, a mensagem do presidente Hosni Mubarak foi bem menos ambiciosa, concentrada na segurança.

Este governo e o sistema do Egito não são tão frágeis como na Tunísia, onde o presidente Ben Ali foi derrubado de forma espetacular neste mês.

Os militares, os países ocidentais e muitos egípcios ricos e poderosos têm muito interesse em manter o presidente Mubarak ou, pelo menos, garantir uma transição pacífica para outro líder simpático ao ocidente e aos negócios. E ainda não há sinal de que estes protestos têm força para superar isto.

Mas, em todo o Oriente Médio, a situação agora é tão imprevisível e os acontecimentos estão evoluindo tão rapidamente que quase tudo pode acontecer.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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