AP Photo/Evan Vucci
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Análise: Quais países podem substituir os EUA como protagonistas globais?

China e Rússia poderiam influenciar economia e defesa, enquanto a Alemanha poderia ser compasso moral do Ocidente; nenhum destes países evitaria, porém, um vácuo de poder se Trump apostar em medidas isolacionistas, diz especialista

Josh Lederman / AP, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2017 | 11h40

WASHINGTON - A promessa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de adotar medidas de política externa com o lema de "América em primeiro lugar" criou dúvidas sobre qual outro país, se houver algum, poderia ocupar o vazio que os EUA deixariam ao abrir mão de seu tradicional papel de líder global. China e Rússia estão entre os aspirantes a influenciadores econômicos e militares, enquanto que a Alemanha poderia ocupar o espaço de compasso moral do Ocidente.

Por gerações, os Estados Unidos definiram em grande parte os termos da economia global, policiaram ameaças à segurança internacional e lideraram resposta a crises como o Ebola e o terremoto no Haiti. Mas depois que Trump assumiu a Casa Branca com uma mensagem isolacionista, enraizada na ideia de que os americanos precisam se concentrar em si mesmo, é cada vez mais forte a noção de que ele quer que o resto do mundo resolva seus próprios problemas.

Trump, em um de seus primeiros atos, retirou formalmente os EUA da Parceria Transpacífico (TTP, na sigla em inglês), um projeto lançado pelo presidente republicano George W. Bush e negociado por Barack Obama para estabelecer regras comerciais com a Ásia para conter crescente influência econômica da China. O presidente americano disse que estava fazendo "uma grande coisa" para os trabalhadores americanos, mas o senador republicano John McCain disse que a medida resultaria em "abdicar a liderança dos EUA na Ásia para a China".

 

E a China não é o único país que pode lucrar com o recuo dos EUA. Rússia e Alemanha também poderiam reivindicar um papel global maior. Nenhum destes países conseguirá, no entanto, combinar simultaneamente o poder econômico, militar e moral dos EUA, de forma que se Washington adotar esta postura isolacionista poderia criar um vácuo de poder.

 

"Não há nenhum país ou conjunto de países que possa fazer o que os EUA fizeram nos últimos 50 anos", disse Jon Alterman, ex-funcionário do Departamento de Estado que trabalha atualmente no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. "É em parte uma questão de recursos e capacidade, e em parte uma questão de ambição. Um grande número de coisas simplesmente não acontecerá", disse Alterman.

Enquanto rivais americanos como a China e a Rússia usariam a oportunidade para tentar substituir os EUA, muitos países da Ásia e da Europa estão preocupados com a perspectiva de uma retirada americana. Até mesmo a Alemanha está preocupa em ser cada vez mais vista como um exemplo moral.

 

A China, que tem investido bilhões na África e na América Latina para influenciar o mundo em desenvolvimento, poderia se tornar uma potência econômica cada vez mais dominante. E ela já está agindo de forma agressiva para um acordo comercial multinacional que parece ser a alternativa mais provável para o TPP, um cenário que a administração de Obama advertiu que deixaria Pequim "escrever as regras" resultando em piores padrões trabalhistas e ambientais.

As ameaças de Trump também foram suficientes para acender um debate global mais amplo sobre globalização versus isolamento. A primeira-ministra britânica, Theresa May, visitará o líder americano no fim desta semana buscando uma cooperação com Trump - que elogiou a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia. O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, parabenizou a abordagem de Trump "America em primeiro lugar" e expressou o alívio de que os EUA Unidos não darão mais aulas de como outros países devem se comportar. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, acusado de tendências antidemocráticas, ecoou essa mensagem, declarando "o fim do multilateralismo" na era de Trump.

 

Enquanto o aumento da força econômica da China e o vigor militar da Rússia podem atrair alguns líderes, poucos países ocidentais se aliarão a Pequim ou Moscou como uma liderança moral. A Alemanha tentou preencher esse vazio, recebendo centenas de milhares de refugiados e defendendo um multilateralismo cada vez menor 70 anos depois de ser culpada por algumas das maiores atrocidades da história na 2ª Guerra Mundial.

 

Mas Berlim, motor econômico da Europa, tem uma deficiência flagrante: a incapacidade de igualar a ambição pelo poder de aspirantes a líderes em Moscou e Pequim. E por todos os seus esforços, a chanceler alemã, Angela Merkel, enfrenta uma duríssima reeleição ainda este ano, onde vai descobrir se sua Alemanha está imune ao novo aumento populista.

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