Felipe Rau/ Estadão
Felipe Rau/ Estadão

Análise: Qual futuro estamos construindo para o Brasil?

Será que em 50 ou 100 anos, os historiadores e cientistas políticos do futuro chegarão a um consenso sobre o momento atual no Brasil e no mundo?

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2020 | 10h25

Em entrevista para o livro “Três Vezes Brasil”, organizado por Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, o mestre José Murilo de Carvalho reafirma a sua convicção de que “somos um povo que vive de sonhos desfeitos”. A seu ver, deveríamos utilizar a efeméride do bicentenário da Independência, em 2022, não para celebrar o fato histórico, mas para um exercício de reflexão com o objetivo de determinar “o que fizemos com o nosso país”.

Para um exame sobre onde chegamos, quais foram os acertos e erros, e se ainda é possível consertar o que está quebrado. Para Murilo de Carvalho, seria uma boa oportunidade para olhar não apenas o passado, mas mirar também o futuro. Uma reflexão sobre a trajetória até aqui, mas indagando onde chegaremos em cinquenta anos a persistir o país no caminho que vem sendo trilhado. 

O Brasil passou por altos e baixos, crise e revoluções, foi marcado indelevelmente pela escravidão, pela exploração do índio, pela imigração. Ao longo dos séculos, passou da monocultura ou da exportação de produtos primários para uma economia mais diversificada e sofisticada. Quando olhamos para trás, a impressão que se tem é que comparado com o ponto de partida formal da vida independente, em 1822, o país se tornou mais forte, superou controvérsias territoriais, manteve unidade apesar das revoltas, e se afirmou como um ator importante na sua região e, mais tarde, no mundo. Apesar dessa tendência de longa duração, o país seguiu sendo marcadamente desigual e, sob muitos aspectos, atrasado econômica e socialmente.

O ufanismo que em alguns momentos tomou conta do país, de maneira mais ou menos induzida por poderosos da ocasião, acabou frustrando as próprias expectativas que gerou. O Brasil é sem dúvida uma Nação de grandes recursos naturais e potencial de crescimento, mas segue sendo o país do futuro, um futuro que custa a chegar, ou que escapa e fica mais distante a cada retrocesso social, crise política e recessão econômica.

Nosso crescimento tem sido por espasmos e sem capacidade de se sustentar, ainda que esses voos de galinha acabem gerando, por algum tempo, aumento do produto e a prosperidade de alguns setores, porém sem nunca superar gargalos do desenvolvimento, tais como baixa taxa de investimento, infraestrutura deficiente, produtividade média baixa, e serviços públicos pouco eficientes.

No painel sobre política externa na “Brazil Conference at Harvard & MIT”, deste ano, o embaixador Rubens Ricupero fez referência à Escola dos “Annales” e sua perspectiva de olhar a história de “longa duração”.  Será que em 50 ou 100 anos, os historiadores e cientistas políticos do futuro chegarão a um consenso sobre o momento atual no Brasil e no mundo?

Este momento será visto como um ponto fora da curva numa trajetória em geral ascendente? Ou será encarado como um ponto de inflexão que marca um longo período de declínio? Por mais que se deseje a primeira opção, é preciso considerar a segunda como uma possibilidade real, inclusive como estímulo para empreender os esforços e tomar as medidas que impeçam a confirmação dessa hipótese.

Para isso, a efeméride do bicentenário, aliado ao impacto geopolítico, econômico e social da atual pandemia, deve servir para indagar onde erramos, o que precisamos corrigir e aonde queremos chegar em 50 ou 100 anos. Queremos seguir sendo eternamente o país do futuro?

O que outras sociedades fizeram para evitar a armadilha do subdesenvolvimento, do declínio e do esgarçamento do tecido social? Seremos capazes de superar as feridas da polarização e do extremismo que hoje dão as cartas no Executivo Federal, de modo a reconstruir uma política democrática baseada no pluralismo, no respeito mútuo, e no diálogo nacional? 

Países, por mais abençoados que sejam por Deus e pela natureza, não têm seu futuro escrito nem seu destino garantido. É por meio dos pilares das instituições democráticas, da organização da sociedade e da arte da política que se constrói um caminho de desenvolvimento, prosperidade e bem-estar.

Devemos nos perguntar se estamos fazendo as escolhas corretas, se estamos lançando as bases de um país melhor ou se, ao contrário, a provação atual indica que seguiremos vivendo de sonhos desfeitos e frustrações renovadas, mirando eternamente um futuro dourado que deixamos escapulir.

*HUSSEIN KALOUT, 43, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018) e atuou como consultor das Nações Unidas e do Banco Mundial. Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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