Todd Heisler/The New York Times
Todd Heisler/The New York Times

Análise: Quando podemos chamar um ataque de terrorismo?

Terrorismo é definido como um atentado contra civis com o objetivo de apavorar uma comunidade para fins políticos. Mas a nova modalidade de terrorismo islamista cuja inspiração é remota tem confundido a distinção

Max Fischer, Washington Post

06 Novembro 2017 | 05h00

Há alguns meses, quando um homem armado abriu fogo contra uma multidão que participava de um concerto em Las Vegas, matando dezenas de pessoas e ferindo centenas, o ataque não foi qualificado como ato de terrorismo. Mas esse rótulo foi dado imediatamente ao ataque que deixou oito pessoas mortas em Manhattan, desencadeando uma nova discussão acirrada em todo o país.  Aparentemente, essa é uma questão que teria a ver diretamente com os motivos do ataque.

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Terrorismo é definido como um atentado contra civis com o objetivo de apavorar uma comunidade para fins políticos. Mas essa nova modalidade de terrorismo islamista levado a cabo por indivíduos cuja inspiração é remota, tem confundido a distinção entre um terrorista e um lobo solitário perturbado. É o caso de atiradores recentes que mostraram sinais de doença mental e uma afinidade com causas ideológicas muito vagas.

Como resultado, terrorismo com frequência é visto pelo espectador e é determinado tanto pelo atacante como a comunidade que é seu alvo, que tem de decidir se o ataque representa uma grande ameaça maior que exige uma resposta. Cada ataque, então, rapidamente desencadeia um debate de soma zero sobre temas relacionados, como controle de armas, imigração ou tolerância religiosa – algumas das questões que mais provocam divisão no país – e sempre num momento de compulsão nacional.

Para alguns americanos, especialmente os de esquerda, o ataque de Las Vegas representa o terrorismo das leis sem controle sobre armas. Classificar o ataque de Las Vegas como ato terrorista implicaria a necessidade de catalogar as armas como ameaças nacionais que exigem uma resposta. A direita entenderia isso como uma tentativa de punir todos os proprietários de armas e os conservadores. Ataques como o de Nova York, perpetrado por um indivíduo do Usbequistão que gritou “Allahu Akbar” (Deus é o maior, em árabe) são vistos por muitas pessoas da direita como o resultado de uma ameaça muito maior, que é a imigração muçulmana descontrolada. Se esse foi um ato de terrorismo, assim definido pelo prefeito Bill de Blasio e outras pessoas, então o homem que cometeu o ataque não poderia ser considerado um lobo solitário mentalmente perturbado.

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Mais de 16 anos após os atentados de 11 de Setembro, muitos americanos, principalmente os de esquerda, questionam a rapidez com que muçulmanos agindo sozinhos são definidos como terroristas, ao passo que atacantes não muçulmanos são rotulados como “atiradores em massa”. Mesmo que o rótulo seja adequado em casos individuais, a contradição sugere uma tendência a se ver os muçulmanos como parte de uma quinta-coluna hostil e os atiradores brancos que cometem um massacre uma exceção.

E o que pode parecer uma simples questão de definição rapidamente provoca uma divisão entre facções diferentes defendendo a primazia do seu próprio ponto de vista, num momento em que parece simultaneamente ela é mais urgente e menos apropriada. Cada ataque aprofunda as divisões. Os acontecimentos provocam um terror visceral em muita gente e se tornam prova de que seus piores medos se tornaram realidade – ou seja, que a outra metade da sociedade está conspirando para deixá-los inseguros, recusando-se a reconhecer a ameaça.

Após o ataque de Manhattan, o presidente Trump postou vários tuítes relacionando o condutor da caminhonete à política de imigração. Disse ter ordenado ao Departamento de Segurança Interna para reforçar o programa Extreme Vetting (programa de verificação extrema) e requereu um fim do programa de loteria de vistos para imigrantes.

A esquerda, especialmente os que estão preocupados com os ataques crescentes contra muçulmanos, teme que possa haver uma tentativa de marginalizar ainda mais os americanos muçulmanos num momento em que eles estão especialmente vulneráveis. 

Definir terrorismo tornou-se outra maneira de debater quem pertence ao país, num momento de perigo. Tornou-se o argumento perfeito em favor da tendência crescente dos americanos a ver seus oponentes políticos não como concidadãos dos quais discordam, mas como ameaças à sua segurança. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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