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Análise: Que a sabedoria de Jo Cox seja lembrada pelos britânicos

Enquanto ouvia as explosivas discussões sobre o Reino Unido ficar ou sair da União Europeia (UE) meus pensamentos se voltavam para minha amiga Jo Cox, a parlamentar assassinada na semana passada

Nicholas Kristof*/ NYT, O Estado de S. Paulo

24 Junho 2016 | 05h00

Enquanto ouvia as explosivas discussões sobre o Reino Unido ficar ou sair da União Europeia (UE) meus pensamentos se voltavam para minha amiga Jo Cox, a parlamentar assassinada na semana passada. Jo era uma líder. Lutou pelas vítimas do genocídio em Darfur, pelos sobreviventes do tráfico humano, pela saúde das mulheres, pelos refugiados sírios e, sim, pela permanência na UE. 

A dedicação de Jo aos sem-voz pode ter lhe custado a vida. Quando o tribunal ordenou ao assassino que dissesse seu nome, ele respondeu “meu nome é morte aos traidores, liberdade para o Reino Unido”.

Do horror, no entanto, pode emergir algo de bom. Um fundo em memória de Jo levantou o equivalente a US$ 2 milhões, a serem destinados a causas que ela apoiava. E talvez a repulsa pelo assassinato tenha servido de alerta aos eleitores sobre o discurso xenofóbico de alguns adeptos do Brexit.

Os britânicos brincam sobre sua visão de Europa com uma piada famosa: “Neblina no Canal, continente isolado”. Mas também é verdade, como escreveu John Done, que “se um torrão for levado pelo mar, a Europa fica menor”. Um dos primeiros a propor os “Estados Unidos da Europa” foi Churchill, em 1946. O que o motivava nessa ideia, e a Jean Monnet, “o pai da Europa”, era principalmente paz e segurança.

A Europa vem desapontando de vários modos. A UE tem fracassado frente a problemas políticos. Ficou paralisada quando o genocídio começou na ex-Iugoslávia, adotou prematuramente a moeda única, falhou em solucionar a recente crise econômica e se atrapalhou na crise de refugiados.

A imigração também alimentou ansiedade sobre perda de controle e erosão de identidade nacional, levando a uma reação não muito diferente da provocada pelo fenômeno Donald Trump nos EUA. A própria Jo Cox admitiu, em artigo escrito pouco antes de sua morte, que “preocupar-se com imigração é bom – muita gente se preocupa”. Mas o que Jo queria dizer é que problemas reais surgidos com a imigração devem ser tratados com soluções práticas.

Um dos poucos triunfos da cooperação internacional nos últimos anos foi o esforço conjunto de Reino Unido, EUA e França para vencer o Ebola na África. Teria sido muito mais difícil com Reino Unido e França fechados em si e a Europa enfrentando uma crise econômica mais profunda. Do mesmo modo, um cenário de pesadelo seria a Rússia dominando a Estônia ou seus vizinhos bálticos, testando a firmeza da Otan. Tal aventura russa teria mais probabilidade de ocorrer com uma UE se desintegrando.

Mesmo o debate sobre o Brexit foi tóxico. Após a morte de Jo, o grupo de extrema direita Ação Nacional escreveu sobre o assassino: “#VoteSair, não deixe que o sacrifício desse homem tenha sido em vão. Jo Cox teria enchido Yorkshire com mais sub-humanos!”. Vivemos um período assustador e o risco de esfacelamento do bloco europeu. 

Jo Cox não teve chance de responder quando o assassino teria gritado “Grã-Bretanha primeiro”. Mas, de certo modo, já havia respondido. Em seu discurso inaugural no Parlamento, vangloriou-se do tradicional peixe com fritas em sua alimentação, mas também dos espetaculares curries dos imigrantes. “Temos, de longe, mais em comum uns com os outros que coisas a nos separar”, afirmou. Descanse em paz, Jo. Espero que a Grã-Bretanha se lembre de sua sabedoria. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É JORNALISTA

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