Nicholas Kamm / AFP
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Análise: Reação dupla de Trump ao Irã se refere a ameaças e ânsia para fechar acordo

As contradições que confundem as pessoas têm alguma lógica na visão do presidente, mas também sublinham a imprecisão e a desordem da política externa trumpiana

Anne Gearan, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2019 | 08h00

WASHINGTON - O presidente Donald Trump declarou que o Irã é a maior ameaça no Oriente Médio, uma aspirante a se tornar uma potência nuclear que ele aniquilou estabelecendo severas sanções jamais aplicadas a um país. E alertou que os Estados Unidos estão “com as armas prontas” para punir o Irã, se necessário, após os ataques contra instalações petrolíferas sauditas no final de semana passada. 

Mas ele também mostrou-se disposto a uma negociação com o líder do Irã, além de cancelar um ataque militar no início deste ano contra o país, afirmando que tal ataque mataria muitos iranianos, e flertou com um plano para oferecer a Teerã uma linha de crédito de US$ 15 bilhões para abrandar os efeitos das devastadoras sanções impostas pelos Estados Unidos.

Na segunda-feira, no Salão Oval, Trump disse a jornalistas que “não queremos guerra com ninguém” e, em menos de uma hora depois, afirmou que um ataque militar americano contra uma instalação de petróleo do Irã seria uma resposta proporcional.

As contradições que confundem as pessoas têm alguma lógica na visão do presidente, mas também sublinham a imprecisão e a desordem da política externa trumpiana. No caso do Irã, Trump viu-se entre o imperativo político de confrontar o país, agradar seus apoiadores republicanos mais radicais no Congresso, seus aliados Israel e Arábia Saudita e seus próprios instintos contrários a uma intervenção externa e no sentido de um acordo com o Irã.

Mas as incertezas quanto à sua posição têm complicado todos os demais problemas de política externa enfrentados pelos Estados Unidos no Oriente Médio, enervam o aliado Israel e colaboraram para a demissão do ex-assessor de segurança nacional John Bolton.

“Não é assim que você faz diplomacia” e isto intensifica o risco de “cometer erros”, do lado iraniano e dos Estados Unidos, disse o senador Ben Cardin, durante entrevista à MSNBC. Cardin é membro da comissão de relações exteriores do Senado.

Esse enfoque duplo de Trump no caso do Irã tem por premissa a ideia de que a saída do acordo nuclear firmado em 2015 com Teerã, substituindo as concessões feitas nesse pacto por novas sanções, agrada aos falcões do Congresso e força o Irã a negociar um acordo que traria a marca Trump.

Trump seria o primeiro presidente americano a se reunir com um presidente iraniano desde a década de 1970, uma ideia que o agrada, disseram alguns dos seus assessores. Ele fez uma oferta que não tem precedente desde que a República Islâmica foi criada com uma revolução antiamericana em 1979, dizendo que se sentaria na mesa de negociação “sem impor nenhuma condição”.

Aliados militares também aconselharam Trump no sentido de que um ataque militar pode ter uma escalada e prejudicá-lo junto a apoiadores chave que prezam a sua promessa de colocar a América em primeiro lugar, ou seja, limitar as obrigações dos Estados Unidos no exterior, disse um funcionário do governo e assessor do presidente.

Embora tenha afirmado em sua campanha em 2016 que encerraria a participação do país em guerras, ele não retirou os soldados do Afeganistão ou do Iraque, mas não gostaria agora, quando disputa uma reeleição, de se envolver num novo conflito no Oriente Médio, disse um dos seus assessores.

Os impulsos ambíguos de Trump no caso do Irã têm uma constante: ele quer deixar um legado melhor do que o do presidente Barack Obama.

Neste sentido o comentário feito no domingo quanto ao país estar “com as armas prontas” partiu de um desejo de confrontar um adversário duro com mais dureza, algo que ele diz que Obama não fez. E o convite ao Irã para negociar parte da sua visão de que conseguirá extrair um acordo mais consistente do que o seu predecessor.

O próprio Trump sublinhou como seu acordo seria diferente do alcançado por Obama.

“Não podemos permitir que o Irã tenha uma arma nuclear e eles nunca a terão. E se estão pensando em enriquecer urânio, devem esquecer, porque isto será muito perigoso para eles”, afirmou.

Esta foi uma referência à autorização estabelecida no acordo de 2015 para o país enriquecer urânio num grau mais baixo. Os oponentes do acordo dizem que qualquer modalidade de enriquecimento dará ao Irã possibilidade de fabricar uma bomba atômica e Trump afirma que essa falha será reparada.

O desdém de Trump com o acordo é compartilhado por Bolton, pelo vice-presidente Mike Pence e o secretário de Estado Mike Pompeo, como também pelos senadores Lindsey Graham e Tom Cotton. Mas ele não compartilha do ceticismo deles quanto a uma negociação com o Irã.

A saída de Bolton na semana passada ocorreu depois de Trump refletir sobre a possibilidade de pôr fim a algumas das sanções estabelecidas contra o Irã como um estímulo para o país negociar, uma ideia que os falcões contrários ao Irã não aceitam.

Na segunda-feira, Trump afirmou que não havia nenhum encontro marcado com o presidente iraniano Hassan Rouhani quando ambos estiverem em Nova York, na próxima semana, para a Assembleia Geral das Nações Unidas. Mas repetiu que “querem se encontrar” eventualmente.

O Irã descartou publicamente um encontro enquanto as sanções não forem suspensas e a já improvável reunião na próxima semana parece cada vez mais remota. Na quarta-feira, três dias antes do ataque na Arábia Saudita, Trump pareceu mais confiante.

“Acredito que eles gostariam de fazer um acordo, diante das tremendas dificuldades financeiras” acarretadas pelas sanções americanas. “Se o fizerem, será excelente. No caso contrário, também”.

Mas na segunda-feira ele disse que a mídia tinha deturpado sua oferta “sem nenhuma condição”. As sanções são “uma condição” e não serão suspensas, afirmou.

Com a saída de Bolton desaparece o mais forte defensor de uma política de máxima pressão contra o Irã, mas persistem as divisões internas no tocante às possíveis conversações.

Assessores do presidente, como Pompeo e o secretário do Tesouro Steven Mnuchin, têm evitado endossar novas conversações, mas não contradizem seu chefe.

“Diria que o secretário Pompeo, eu próprio e o presidente estamos totalmente alinhados na nossa campanha de máxima pressão. Acho que estabelecemos mais sanções contra o Irã do que qualquer outro governo e está funcionando”, afirmou Mnuchin no dia 10 de setembro, horas depois de Trump comunicar a exoneração de Bolton.

“O presidente deixou claro que ficaria satisfeito com uma reunião sem precondições, mas estamos mantendo a campanha de pressão máxima”.

Mike Pompeo foi indagad0 que previa uma reunião entre Trump e Rouhani durante a assembleia da ONU e se ele a apoiava. 

“O presidente deixou muito claro que está disposto a se reunir sem condições prévias”, respondeu ele. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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