Análise: Relações entre Riad e Washington vêm se desgastando

A intempestiva decisão da monarquia saudita de rejeitar um assento rotativo no Conselho de Segurança da ONU, depois de haver trabalhado durante anos para ocupá-lo pela primeira vez, reflete a exasperação e o sentimento de vulnerabilidade do dono da maior reserva de petróleo do mundo diante do recuo do presidente Barack Obama em relação à Síria e das negociações das potências ocidentais com o Irã - seu adversário no Golfo Pérsico.

Lourival Sant'Anna - O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2013 | 02h05

Berço do Islã, sede das cidades sagradas de Meca e Medina, a Arábia Saudita é o centro de irradiação da fé sunita, revestida da doutrina wahabita, uma leitura radical e literal do Alcorão. Já o Irã ocupa lugar equivalente para a seita xiita, propagada com fervor por sua teocracia. Além disso, há a histórica disputa entre árabes e persas, e entre duas potências regionais de territórios comparáveis.

A Síria, governada pela minoria alauita, ramificação da seita xiita, é aliada do Irã. A queda do sunita Saddam Hussein e a ascensão da maioria xiita no Iraque - vizinho da Arábia Saudita - proporcionou ao Irã um importante corredor até o Mediterrâneo. A revolução na Síria representou para os sauditas uma oportunidade de instituir no país um regime de maioria sunita aliado ao reino. Riad talvez não financie diretamente os rebeldes, mas "tolera" que famílias ricas do reino e dos emirados da Península o façam, patrocinando sobretudo os grupos radicais islâmicos ligados à Al-Qaeda, um grupo originalmente saudita.

O recuo de Obama da ameaça de bombardear a Síria e as negociações dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (mais a Alemanha) com o Irã a respeito de seu programa nuclear são iniciativas interligadas. O Irã ameaçou envolver Israel no conflito se os EUA atacassem a Síria e ofereceu como alternativa o desmantelamento das armas químicas.

A inapetência americana para uma nova aventura militar na região não tem explicação apenas na exaustão econômica e política. Mas também no conflito de interesses entre americanos e as monarquias aliadas do Golfo. O modelo que levou os Estados Unidos a se aliarem à Al-Qaeda e a outros grupos mujaheddin para expulsar os russos do Afeganistão se esgotou com os atentados de 11 de setembro de 2001.

O regime saudita deixou de apoiar oficialmente os grupos jihadistas, mas continua lançando mão deles em várias partes do mundo para manter sua influência e enfrentar ameaças percebidas. Essa ambivalência está esgarçando sua aliança com os Estados Unidos. É isso que está por trás do insólito gesto saudita.

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