RONALDO SCHEMIDT / AFP
RONALDO SCHEMIDT / AFP

Análise: Renúncia foi um golpe ou o resultado da vontade popular? 

A vertiginosa sucessão de acontecimentos no domingo continuou a reverberar por toda a América Latina

Anthony Faiola e Rachelle Krygier / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2019 | 06h00

Os bolivianos acordaram na segunda-feira, sem liderança e atordoados, ante às brasas ardentes das casas dos socialistas, incendiadas após a renúncia do presidente por muito tempo, Evo Morales, o ícone de esquerda afastado do cargo em meio a acusações de que seu partido fraudou as eleições do mês passado. Enquanto o país mais pobre da América do Sul tentava compreender os acelerados eventos do dia anterior, seus cidadãos enfrentavam uma questão-chave: a democracia fracassou ou venceu?

Evo, que transformou a Bolívia durante seus quase 14 anos no cargo, considerou a pressão que o forçou a sair no domingo como um “golpe”. No início do dia, a Organização dos Estados Americanos (OEA) disse ter constatado uma “clara manipulação” das eleições de 20 de outubro. A violência que havia entrado em ebulição desde a votação aumentou. Os chefes das Forças Armadas e da Polícia retiraram seu apoio e a oposição desencadeou uma onda de ataques aos aliados socialistas de Evo.

No fim do domingo, todas as quatro autoridades socialistas da cadeia de comando constitucional - o presidente, o vice-presidente e os líderes do Senado e da Câmara dos Deputados - renunciaram. O que restou do Congresso começou a discutir ontem quem será o líder interino.

Carlos Mesa, o ex-presidente que terminou em segundo com Evo na votação de 20 de outubro, rejeitou a palavra “golpe”. Ele chamou de “ação popular democrática” para terminar um governo que estava tentando se instalar como poder autoritário.

Mesa disse na segunda-feira que o poder legislativo da Bolívia deve selecionar um novo presidente para assumir o posto até que o país possa realizar novas eleições, num prazo exigido de 90 dias. Mesa disse no domingo que nenhum dos integrantes do Movimento para o Socialismo de Morales (MAS) deve ser escolhido como líder interino, mas ele insistiu na segunda-feira que os membros do MAS não devem temer perseguição.

“O claro desejo da oposição democrática é criar um governo democrático, respeitando a constituição", afirmou.

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Jeanine Añez, a segunda vice-presidente, acirradamente anti-EVo no Senado, disse na segunda-feira que aceitaria uma presidência interina, se o cargo lhe fosse oferecido. Alguns oficiais da oposição se uniram a ela, argumentando que constitucionalmente, o cargo deveria caber a ela. Meu “único objetivo seria convocar eleições”, disse ela a repórteres.

No entanto, a Bolívia enfrentava divisões profundas e uma persistente violência - com a forte possibilidade de um agravamento. Da noite para o dia, com o paradeiro de Evo desconhecido, manifestantes da oposição saquearam e queimaram as casas de políticos socialistas - incluindo a de Evo.

Pelo menos 20 funcionários do MAS pediram asilo na Embaixada do México. O prefeito de La Paz, Luis Revilla Herrero, disse que 64 ônibus foram queimados desde domingo. Escolas e empresas fecharam na segunda-feira e o transporte foi suspenso.

Alguns integrantes da oposição estavam claramente ansiosos por vingança contra o governo que dominou o país mais pobre da América do Sul desde 2006. O líder de direita Luis Fernando Camacho convocou, na noite de domingo, para mais dois dias de protestos e disse que apresentaria propostas para processar Evo, seu ex-vice-presidente, Álvaro Garcia Linares, e legisladores do MAS.

“Vamos iniciar os julgamentos dos criminosos do partido do governo, colocando-os na cadeia”, disse ele em um comunicado por vídeo.

Dois membros do tribunal eleitoral - sua ex-presidente Maria Eugenia Choque e ex-vice-presidente Antonio Costas - já foram detidos. Sandra Kettels, uma autoridade eleitoral em Santa Cruz, foi presa na segunda-feira de manhã. O Ministério Público anunciou a emissão de mandados contra todos os funcionários da justiça eleitoral.

 “Uma noite de terror”, declarou o jornal nacional La Razón. Na segunda-feira, irados defensores de Evo montaram barricadas para bloquear as estradas que levam ao aeroporto de El Alto-La Paz, informou a Associated Press.

Evo afirmou no domingo que um mandado de prisão havia sido emitido contra ele. Vladimir Calderón, chefe da polícia nacional, negou no domingo que tal ordem de prisão tivesse sido emitida. Mas Calderón renunciou na segunda-feira, aumentando a confusão no terreno.

Evo e seus opositores culparam uns aos outros pela violência

“Os golpistas que atacaram minha casa e a de minha irmã, ameaçaram de morte os ministros e seus filhos e atacaram um prefeito, agora mentem e tentam nos culpar pelo caos e pela violência que provocaram”, disse Evo em um tuíte na segunda-feira de manhã. “A Bolívia e o mundo são testemunhas do golpe."

Uma questão-chave que se apresenta é saber se a oposição de direita, agora claramente no controle do país, permitiria que os socialistas apresentassem qualquer candidato nas novas eleições depois que a OEA detectou evidências de fraude eleitoral. Evo havia conquistado uma margem de 10% de vitória na votação de 20 de outubro - apenas o suficiente para evitar um segundo turno, no qual suas chances de perder teriam sido elevadas.

Evo, que venceu eleições passadas por largas margens, havia prolongado demais sua permanência no cargo. Ele concorreu ao quarto mandato, apesar de perder um referendo nacional sobre limites de mandato. Mas os socialistas ainda comandam um significativo apoio na Bolívia, e a decisão de barrá-los traz o risco de mais conflitos.

A vertiginosa sucessão de acontecimentos no domingo continuou a reverberar por toda a América Latina. Na Venezuela, disseram analistas, o governo autoritário de esquerda considera os ataques contra socialistas bolivianos como prova de que ceder voluntariamente o poder pode ser perigoso.

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“Na Venezuela, as declarações da oposição dizendo que querem trabalhar com a (esquerda), de que não haverá vingança”, disse Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano em Washington. “Acho que haverá muito mais ceticismo quanto a isso, depois de ver o que está acontecendo na Bolívia.”

O debate para definir se a democracia foi restaurada ou quebrada se enfureceu na Bolívia e em toda a região. Os socialistas de Evo foram acusados de fraudar uma eleição. Mas os críticos disseram que a decisão dos militares de retirar seu apoio, e a força da multidão que o forçou a sair, eram tudo, menos constitucionais.

As opiniões ficaram ao longo de linhas ideológicas, expondo as divisões políticas entre e dentro das nações latino-americanas.

Algumas nações criticaram a Organização dos Estados Americanos, um órgão semelhante ao das Nações Unidas, sediado em Washington, para o hemisfério, por cruzar os braços, enquanto Evo foi forçado a deixar o cargo no domingo.

“Vamos solicitar urgentemente uma reunião da Organização dos Estados Americanos, porque ontem o silêncio prevaleceu”, disse na segunda-feira Marcelo Ebrard, ministro das Relações Exteriores do México. “Como se pode manter o silêncio diante de um acontecimento dessa gravidade?"

Ele reiterou que o México acredita que o que aconteceu no domingo constituiu um golpe. Evo aceitou a oferta de asilo político do México. "O que não podemos tolerar é que um militar diga a um presidente que ele deve deixar o cargo”, afirmou. “O que aconteceu ontem é um revés para todo o continente”.

A Argentina, dirigida pelo atual presidente de centro-direita Mauricio Macri, adotou uma visão diferente. “Para o nosso governo, não houve golpe”, disse Normando Alvarez García, embaixador argentino na Bolívia, a uma estação de rádio local. “Há uma interrupção da ordem constitucional com base na agitação social." / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

 

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