Michael Reynolds/Pool via EFE/EPA
Michael Reynolds/Pool via EFE/EPA

Análise: Republicano apaga as linhas entre governar e fazer campanha

Donald Trump vem forçando limites legais de maneiras que vão muito além do que fizeram seus predecessores

David Nakamura, The Washington Post

25 de agosto de 2020 | 04h00

Perdendo nas pesquisas e tentando encontrar uma mensagem, o presidente Donald Trump está pondo um dos ativos mais poderosos que lhe restam – seu cargo na Casa Branca – a serviço da candidatura à reeleição, apagando as linhas entre governar e fazer campanha e forçando os limites legais de maneiras que vão muito além do que fizeram seus predecessores.

Nas últimas semanas, Trump admitiu que se opunha ao financiamento do Serviço Postal dos Estados Unidos porque não queria que o dinheiro fosse usado para a votação universal por correspondência. Ele enviou autoridades da Segurança Interna para reprimir protestos por justiça social no que chamou de “cidades democratas”. Assinou uma série de decretos executivos que contornaram o Congresso. E fez discursos abertamente partidários em funções oficiais da Casa Branca, entre eles um monólogo de 54 minutos no Jardim das Roseiras, em que atacou o rival democrata, Joe Biden, no mês passado.

Trump também usou pessoal e recursos federais para recriar o entusiasmo de seus comícios de campanha que foram restringidos pela pandemia do coronavírus. Ele convidou clientes de seu resort de golfe particular em Bedminster, Nova Jersey, para participar de coletivas de imprensa no local, quando muitos deles importunaram os repórteres. E, na semana passada, fez um comício de campanha em Yuma, Arizona, com 200 membros do sindicato da Patrulha de Fronteiras, muitos usando máscaras com o brasão “TRUMP” e “MAGA” [Make America Great Again].

Esta semana, ele deve coroar sua renomeação na Convenção Nacional Republicana com um discurso de aceitação na Casa Branca. A primeira-dama Melania Trump fará seu próprio discurso no Jardim das Roseiras, o qual ela renovou recentemente. A filha de Trump, Ivanka Trump, e Ja'Ron Smith, ambos assessores na Casa Branca, também vão falar na convenção, assim como o secretário de Estado, Mike Pompeo, o que viola a velha tradição de o principal diplomata do país manter distância da política partidária.

Os presidentes de ambos os partidos, entre eles Barack Obama e George W. Bush, antecessores mais recentes de Trump, misturaram uma certa medida campanha com os assuntos oficiais da Casa Branca, especialmente em anos eleitorais. Mas Trump atropelou normas até então respeitadas por ambos os partidos e desafiou as barreiras legais que limitam a atividade política de autoridades federais, disseram advogados de ética.

Além das questões jurídicas, o discurso de Trump na Casa Branca esta semana passa “uma mensagem muito forte à força de trabalho federal: se você está numa posição de alto escalão, o governo está lá para servi-lo”, disse Walter Shaub, que foi diretor do Gabinete de Ética Governamental da administração Obama. “E isso vira de ponta-cabeça toda a ideia do serviço público”.

Shaub destacou a decisão de Trump de não abrir mão do controle de seus promissores negócios imobiliários ao assumir a cadeira de presidente como o gesto inaugural de uma presidência que foi definida pela “auto-negociação”.

Trump, disse ele, “deixa claro que não vê distinção entre o governo e ele próprio”.

Os democratas levantaram objeções a Trump usar a Casa Branca como pano de fundo político. Em resposta às investigações do Congresso, o Gabinete de Aconselhamento Especial declarou em uma carta este mês que Trump e o vice-presidente Mike Pence estão isentos dos regulamentos civis previstos pela Lei Hatch, que proíbe funcionários do governo de participarem de algumas formas de atividade política. Posteriormente, o gabinete esclareceu que não havia se pronunciado sobre as disposições penais da lei.

Em comunicado, Judd Deere, porta-voz da Casa Branca, disse: “O presidente, como todos aqueles que presidiram antes dele, tem todo o direito de se dirigir ao povo americano sobre qualquer assunto, a qualquer hora e em qualquer local”.

Trump defendeu sua escolha de falar da Casa Branca como uma medida de redução de custos para os contribuintes. Antes dos cancelamentos, os republicanos haviam planejado realizar as partes públicas de sua convenção em Charlotte, assim como os democratas.

Usar a Casa Branca, sugeriu Trump, economizaria fundos públicos, pois facilitaria os procedimentos de segurança. Mas a maioria das outras despesas de um evento fora dali seriam, presumivelmente, arcadas por sua campanha ou pelo Comitê Nacional Republicano.

O presidente disse que também pensou em falar em um local histórico de Gettysburg, Pensilvânia, mas disse ao New York Post na semana passada que escolheu a Casa Branca porque “me faz me sentir bem. Faz o país se sentir bem”.

Trump já transformou em ataques políticos muitos de seus discursos em eventos oficiais. Na sexta-feira, ele fez um forte ataque a Biden durante longos comentários sobre o Conselho de Política Nacional.

“Eu sou a única coisa que protege o sonho americano da anarquia total, da loucura e do caos”, disse Trump. Uma autoridade da Casa Branca disse que os presidentes de ambos os partidos costumam apontar seus contrastes com a oposição, especialmente em ano eleitoral.

Os críticos ressaltam o fato de Trump utilizar seus recursos privados em reuniões com líderes estrangeiros e sobre outros assuntos do governo, a nomeação de Ivanka Trump e do genro Jared Kushner como conselheiros da Casa Branca e o uso de uma conta pessoal no Twitter para atacar rivais e anunciar políticas como exemplos de sua disposição em confundir interesses públicos e pessoais.

“Ele acha que o mundo inteiro cabe no seu feed de Twitter”, disse Simon Rosenberg, fundador do NDN, um think tank liberal. “O oficial fica subordinado ao político”.

Em um tuíte na semana passada, Trump pediu um boicote à Goodyear por causa da decisão da empresa de proibir seus funcionários de usarem adereços com mensagens políticas, como bonés “Make America Great Again”. Depois, ele disse que apoiaria a remoção dos pneus Goodyear da limusine presidencial, o que levou um repórter a perguntar se ele estava fazendo uma declaração política ou estabelecendo uma nova diretiva para o governo.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Kayleigh McEnany, disse que a Goodyear estava adotando dois pesos e duas medidas ao permitir expressões de apoio ao movimento Black Lives Matter. O slogan da campanha de Trump, afirmou ela, tornou-se sinônimo de apoio à campanha “vidas azuis importam” para as agências policiais.

“Vou ficar neste palanque e dizer que ‘vidas azuis importam’ é uma questão de equidade, e a Goodyear precisa entender isso”, disse McEnany na Casa Branca.

Os historiadores compararam a abordagem de Trump com a de autocratas que se concentram em manter o poder e enriquecer. A autora Ruth Ben-Ghiat, que vem escrevendo sobre governantes autoritários, disse que Trump tentou “desacreditar as instituições democráticas” e “dificultar que os americanos exerçam seus direitos, este é o motivo de sua guerra contra o voto por correspondência e o Serviço Postal”.

O ataque de Trump à Goodyear, acrescentou ela, tinha como objetivo “dominar seus inimigos e silenciar qualquer contestação à sua reeleição”.

Desde o início de sua primeira campanha, Trump transgrediu as proteções do sistema eleitoral, potencialmente colocando a segurança nacional em risco, segundo membros de ambos os partidos.

Divulgado na semana passada, um minucioso relatório do Comitê de Inteligência do Senado, liderado pelos republicanos, retratou sua campanha de 2016 como uma ação que, ansiosa para explorar a ajuda do Kremlin, acarretou riscos de contraespionagem, por causa de vários contatos com a Rússia.

Este ano, a Câmara, liderada pelos democratas, votou o impeachment de Trump por causa de um telefonema privado em julho de 2019, durante o qual ele pressionou o presidente da Ucrânia a abrir uma investigação sobre Biden e seu filho, Hunter.

“Este governo mostrou que, se for necessário para vencer, destruirá nossa democracia”, advertiu Obama em uma crítica dilacerante à presidência de Trump durante a Convenção Nacional Democrata, na semana passada.

Como Biden assumiu a liderança nas pesquisas nacionais, Trump lançou uma guerra cultural contra os protestos por justiça racial nas cidades americanas. Durante uma celebração de 4 de julho na Casa Branca, o presidente criticou a “esquerda radical, os marxistas, os anarquistas, os agitadores” em um discurso fortemente partidário no gramado sul da residência oficial.

Desde então, seu governo despachou autoridades federais – entre elas uma divisão tática da Patrulha de Fronteiras e a polícia secreta do Departamento de Segurança Interna – para Portland, Seattle e outras cidades, com o objetivo de prender pessoas e conter os protestos. Trump culpou prefeitos e governadores democratas por não conseguir reprimir as manifestações, as quais foram, em grande medida, pacíficas, ainda que tenham testemunhado alguns casos de violência, saques e incêndios criminosos.

Na semana passada, Trump mirou mais uma vez em um de seus alvos políticos favoritos: a Califórnia. Ele ameaçou suspender o auxílio ao estado porque seus líderes democratas não seguiram seu conselho de “limpar as florestas” de folhas e outros detritos, embora muitas dessas terras sejam controladas pelo governo federal.

“Talvez a gente tenha que fazer com que eles paguem por isso, porque eles não ouvem”, disse ele durante um evento na Pensilvânia.

Em Yuma, Trump discursou em um hangar do aeroporto com 200 membros do sindicato do Conselho Nacional da Patrulha de Fronteiras e centenas de familiares. O presidente do sindicato, Brandon Judd, aliado de Trump e convidado frequente da Fox News, aqueceu a multidão ecoando as advertências de Trump sobre a “ilegalidade que vai acontecer” se Biden for eleito.

“Desde o início, tivemos essa química”, disse Trump a Judd, dizendo que os patrulheiros de fronteiras são “grandes amigos meus”.

Na semana passada, Trump levantou a possibilidade de enviar autoridades policiais para monitorar os locais de votação, aumentando o alerta de que a medida ecoava táticas historicamente usadas para intimidar eleitores não brancos.

Miles Taylor, que trabalhou como chefe de gabinete da ex-secretária de Segurança Kirstjen Nielsen, disse em uma entrevista que Trump via a agência de 250 mil pessoas como “uma plataforma política”. Ele se lembrou de uma visita de Trump à fronteira do Texas com o México durante a paralisação parcial do governo em janeiro de 2019, quando o presidente disse a assessores que queria que o evento, durante o qual posou com veículos táticos e pacotes de narcóticos apreendidos, parecesse um “cenário de Hollywood”.

O moral do Departamento de Segurança caiu porque “as bases do departamento acham que seu trabalho é prevenir outro 11 de Setembro, não reeleger o presidente”, disse Taylor, que recentemente endossou Biden depois de deixar o governo Trump, no ano passado.

O Conselho Nacional da Patrulha de Fronteiras jamais endossara qualquer candidato à presidência antes de apoiar Trump em 2016, disse Judd. Mesmo assim, ele refutou a sugestão de que os estreitos laços políticos do sindicato com Trump poderiam influenciar a percepção pública de que o órgão não obedeceria às ordens sob o governo Biden.

“Nós trabalhamos no mais alto nível sob Obama”, disse Judd.

“Os sindicatos apoiam candidatos o tempo todo”, disse Lawrence Noble, ex-conselheiro da Comissão Eleitoral Federal. “O problema é quando uma agência das forças de segurança endossa um candidato fortemente e fala qual candidato é o melhor. Essas forças estão na linha de frente e, quando você se depara com uma agência federal de segurança, você não quer sentir que seu posicionamento político faça diferença. E, se essas forças também estão sendo usadas para reprimir protestos contra o presidente, a situação é realmente preocupante”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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