Travis Dove/The New York Times via AP
Travis Dove/The New York Times via AP

Análise: Republicanos podem não ter plataforma, mas têm um plano

Se reeleito, veremos mais do mesmo: um governo voltado para a agenda do partido em troca de líderes que olham para o outro lado, enquanto Trump transforma o governo em uma máquina de patrocínio para ele, sua família e seus aliados

Jamelle Bouie / The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 05h00

Os republicanos optaram por não ter uma plataforma para sua convenção, nenhuma declaração de valores ou de princípios. Em vez disso, o partido aprovou uma resolução para “apoiar agenda da América em primeiro lugar” de Donald Trump, seja ela qual for. E, embora a Casa Branca tenha feito um esboço de sua agenda para o segundo mandato, a convenção em si tem pouco conteúdo, além de queixas e bajulações ao presidente. 

É fácil dizer que os republicanos se renderam ao culto à personalidade de Trump. Também é fácil dizer que o partido não tem ideias ou planos. A situação agora não é muito diferente do que era em 2016. Trump não tinha uma agenda séria na época, assim como não tem agora. Em vez de trazer um novo programa para o partido, ele fez uma troca: apoio total aos seus interesses pessoais em troca da defesa dos interesses conservadores.

Os últimos anos mostraram a sabedoria deste pacto. A indiferença dos republicanos diante da corrupção, da criminalidade e do preconceito foi recompensada com desregulamentação, cortes de gastos sociais e a nomeação de juízes conservadores. Assim, por que consertar o que não está quebrado? Se não há plataforma é porque o acordo entre Trump e o partido está intacto. 

Se reeleito, veremos mais do mesmo: um governo voltado para a agenda do partido em troca de líderes que olham para o outro lado, enquanto Trump transforma o governo em uma máquina de patrocínio para ele, sua família e seus aliados.

Sob Trump, o Partido Republicano abandonou a retórica de Estado mínimo e dos direitos naturais. Mas isso tem menos a ver com a agenda do partido do que com sua imagem pública. Foi-se o militarismo e a piedade evangélica de George W. Bush ou inclinação libertária do Tea Party.

Em vez disso, temos a estética Fox News, de um presidente que chegou ao poder por meio do canal a cabo, com quem mantém uma relação de dependência. Ele confia na cobertura da TV, enquanto a Fox adapta seus comentários às preferências do presidente. 

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Não é novidade que o Partido Republicano tem uma agenda de governo desatualizada, construída a partir dos dogmas há muito desacreditados do movimento conservador. “A renovação dos republicanos é indiferente ao conteúdo do governo”, escreve o escritor Steve Benen, no livro The Impostors: How Republicans Quit Governing and Seized American Politics (“Os impostores: como os republicanos deixaram de governar e dominaram a política americana”). 

“O partido desdenha da análise. É hostil às evidências e à aritmética. Está vinculado a poucas preferências políticas significativas. Não sabe, e não se importa, em como as políticas devem ser elaboradas, examinadas ou implementadas.”

A novidade é até que ponto o Partido Republicano abraçou as armadilhas de seu líder, ou seja, de uma rede de TV a cabo de direita: um desfile incessante de conspirações, demagogia e ressentimentos, a serviço de um culto à personalidade, tudo em nome da exploração, da pilhagem e do roubo.

*É COLUNISTA

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