Federico Parra / AFP
Federico Parra / AFP

ANÁLISE: Resistência chavista à pressão internacional dificulta mudanças

Lutas cruciais pelo poder aguardam à frente nos próximos dias na Venezuela, mas há a sensação de que Maduro está mantendo o poder por mais tempo que o esperado e que as medidas para o derrubar podem sair pela culatra

Josh Wingrove & Raymond Colitt / BLOOMBERG, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2019 | 05h00

O presidente Donald Trump está intensificando a pressão sobre o presidente venezuelano Nicolás Maduro e prometendo erradicar o socialismo das Américas - mas, nos bastidores, até mesmo aliados leais têm suas dúvidas. O discurso de Trump em Miami na segunda-feira foi o mais recente esforço dos EUA e de vários aliados que reconhecem Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela. A resposta às declarações de Trump foi que Maduro e seus generais esforçaram-se mais e não estão mostrando nenhuma intenção de desistir.

Lutas cruciais pelo poder aguardam à frente nos próximos dias, com Guaidó prometendo abrir o país para ajuda humanitária em 23 de fevereiro e Maduro e o fundador da Virgin Atlantic, Sir Richard Branson, realizando shows beneficentes rivais. Enquanto isso, a UE despacha uma equipe para pressionar por novas eleições. No entanto, há a sensação cada vez mais forte de que Maduro está mantendo o poder por mais tempo que o esperado e que as medidas para o derrubar podem até sair pela culatra.

“É óbvio que se ele resiste à pressão, ele parece estar mais forte”, disse o ministro do Exterior espanhol, Josep Borrell, em uma entrevista em Madri. “Essa é uma realidade com a qual os EUA certamente contavam”.

Maduro enfrenta uma série de países que se unem em torno de Guaidó como presidente interino - inicialmente os EUA e o chamado Grupo de Lima de nações como Brasil, Canadá, Argentina e vários países latino-americanos. O parlamento da UE e o Japão vieram em seguida. "Nosso país anuncia que apoiamos claramente o presidente interino Guaidó”, disse o ministro das Relações Exteriores, Taro Kono, na terça-feira.

Trump exigiu que os militares da Venezuela deixassem a ajuda passar e advertiu que “todas as opções estão em aberto” para sua administração. “Eles estão arriscando suas vidas e o futuro da Venezuela por um homem controlado pelo governo cubano”, disse Trump sobre os militares venezuelanos, instando-os a abandonar Maduro e aceitar a oferta de anistia de Guaidó.

Mas o tempo se arrasta e a paciência vai se esgotando. Uma autoridade do governo do Reino Unido disse que o ímpeto parece ter arrefecido. Em particular, algumas autoridades brasileiras estão começando a se perguntar se toda a estratégia liderada pelos EUA começa a fracassar, segundo um diplomata que lida com a situação venezuelana.

“Guaidó não controla nada na Venezuela além de seu escritório”, disse Mauricio Santoro, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. “A capacidade dele para implementar qualquer política pública é muito limitada”.

“Estamos absolutamente frustrados. O regime de Maduro é ilegítimo”, disse a repórteres a ministra do Exterior do Canadá, Chrystia Freeland, em 16 de fevereiro, dois dias depois de falar com Guaidó. "Este é um processo liderado pelo povo da Venezuela. Nosso trabalho como comunidade internacional é apoiá-los, e é isso que estamos fazendo.” Ela minimizou a necessidade de considerar qualquer intervenção militar.

Mesmo entre os críticos de Maduro, as divisões permanecem. Países da UE estão unidos na condenação a Maduro, mas divididos quanto ao que fazer sobre isso. O governo populista da Itália aferrou-se a um acordo interno duramente obtido - pedindo novas eleições, mas evitando reconhecer Guaidó como presidente interino, de acordo com uma autoridade italiana que pediu para não ser identificada.

Isadora Zubillaga, conselheira de Guaidó para a Europa, acredita que a UE pode impor sanções ao regime de Maduro e ressaltou a unidade no bloco, apesar das várias nações que ainda não reconhecem Guaidó como presidente interino. Mas embora a UE tenha ameaçado impor sanções, o escopo potencial não está claro.

Quaisquer sanções teriam de ser determinadas por todos os membros da UE, disse o funcionário italiano, acrescentando que, pelo que ele sabe, esta opção ainda não foi discutida em Bruxelas. E sem um amplo apoio internacional, qualquer nova intervenção dos EUA poderia parecer mais uma mudança forçada de regime do que apoio a um líder legítimo.

Outros estão dizendo que ainda é cedo para se saber se o impulso global contra Maduro estagnou. Um alto funcionário do governo canadense, falando sob condição de anonimato, disse que as nações estão mantendo pressão enquanto procuram meios de apoiar a oposição no local.

No Brasil, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que era uma questão de tempo até que o regime de Maduro desmorone como um castelo de cartas. A pressão forçaria Maduro a se afastar pacificamente e voluntariamente, disse ele.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), discretamente está se preparando para ajudar o país se Guaidó for empossado como presidente, disse um funcionário familiarizado com a situação, sob condição de anonimato. Isso seria o começo de um imenso esforço de ajuda humanitária e estabilização em um país onde a inflação sobe rapidamente e a economia está em colapso, disse a autoridade.

O apoio internacional a Maduro é pequeno, mas crucial. Depois de importar cerca de US$ 900 milhões em ouro da Venezuela no ano passado, a Turquia colocou o pé no freio no comércio do metal precioso, em meio a advertências de Washington.

O destino de Maduro depende em grande parte de dois pesos pesados que continuam a apoiá-lo: a Rússia e a China. O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, disse que importantes diferenças permanecem com Washington, em relação à Venezuela.

A China se distanciou da luta pelo poder, dizendo que cabe ao povo da Venezuela resolvê-lo. “As relações China-Venezuela são relações normais de estado para estado”, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hua Chunying, em 14 de fevereiro.

‘O dinheiro dos chineses e russos permitiu que o regime de Maduro sobrevivesse”, disse Santoro, do Rio de Janeiro. “ Por quanto tempo mais, não sabemos. Talvez até que a China e a Rússia estejam prontas para sair também.”/ Tradução de Claudia Bozzo

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