AFP PHOTO / SAUL LOEB
AFP PHOTO / SAUL LOEB

ANÁLISE: Reunião desafia Trump a trocar ruptura por diálogo construtivo

Quando se reunir com Kim Jong-un em Cingapura, Donald Trump terá uma oportunidade única de mudar a imagem que tem de destemperado e mercurial

Dan Balz, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2018 | 05h00

 A capa da edição desta semana da revista The Economist mostra o presidente Donald Trump manejando uma gigantesca bola de demolição – uma metáfora de sua política exterior. A revista o chama de “o demolidor” e faz dele um retrato alarmante. Nesta terça-feira, 12, em Cingapura, quando se reunir com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, Trump terá oportunidade de começar a mudar essa imagem. Conseguirá?

+ Pressão para Trump obter acordo com Kim aumenta após fracasso no G-7 

O prelúdio do encontro de terça foi tudo menos suave. Anunciada de chofre, a cúpula pegou até alguns conselheiros de Trump de surpresa. Duas semanas atrás, ela fora cancelada abruptamente – por um chilique presidencial ou numa estragégia de jogador? Seja como for, o evento voltou rapidamente ao calendário. Uma avalanche de reuniões preparou o cenário.

+ ENTREVISTA:  ‘Chegar à desnuclearização demandará muito tempo’

O objetivo do encontro não mudou: o presidente quer que a Coreia do Norte concorde com uma completa, verificável, e irreversível desnuclearização. As expectitivas, porém, mudaram. Antes, Trump queria ver tudo decidido em um único encontro entre os dois líderes, diferentemente de como costumam ser negociações desse nível. Agora já admite que a cúpula de terça, mesmo tendo êxito, será apenas o primeiro passo de um longo processo.  

Dúvidas persistem quanto à aptidão do presidente para as negociações. Trump diz que esteve se preparando “durante toda a vida”. Ele também afirma que tal evento necessita de pouca preparação. Os que já participaram de encontros do tipo, no entanto, riem-se da ideia. A confiança do presidente decorre sem dúvida de suas incontáveis negociações como executivo e empreendedor imobiliário. Nunca, porém, esteve ele envolvido em nada de tal complexidade e com tais possíveis consequências.

A cúpula de terça-feira poderá ser o tipo de evento que o presidente adora, com uma plateia mundial, repercussão midiática nas nuvens e tudo e todos focados nele (e no ditador norte-coreano, claro). O clima será diferente daquele do fim de semana Trump passou reunido com outros membros do G-7, com suas políticas comerciais criando atritos e descontentamento. Na terça-feira, ele comandará alegremente todo o espetáculo.

O presente vem dizendo que está preparado se retirar se as coisas não correm bem, mas ele investiu para fazer da cúpula um sucesso. Dado seu pendor para a hipérbole e o exagero, é fácil imaginar os sorrisos, os apertos de mão e a retórica grandiosa que marcarão o início e o fim das conversas.

A realidade, porém, é outra coisa. Não será a primeira vez que os norte-coreanos discutem suas ambições nucleares nem será o primeiro acordo que fazem com outras nações. No passado, sua palavra mostrou-se vazia. Como disse Leon Paneatta, ex-diretor da CIA e ex-secretário de Defesa, “será difícil acreditar em qualquer coisa dita” na cúpula. “A premissa ao se entrar na sala de negociações é de que ‘não dá para confiar nele (em Kim)’.”

Ao mesmo tempo, o sucesso no longo prazo em eliminar o programa nuclear da Coreia do Norte pode depender de os dois líderes conseguirem estabelecer uma relação de confiança mútua que possibilite negociações subsequentes entre seus assessores e conselheiros à medida que o processo avance. Para o presidente, isso poderá ser mais difícil do que parece.

Ele tem se mostrado hábil em desenvolver relações aparentemente boas com outros líderes mundiais – e em seguida comprometê-las com palavras e ações inesperadas. Trump frequentemente avalia os outros com base no que é bom para ele, Trump. Isso ocorreu  recentemente em reuniões com o presidente francês, Emmanuel Macron, com quem Trump teve um virtual caso de amor, e com o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, em consequência de discordâncias sobre a política comercial do governo americano.    

Pode levar anos até que se possa avaliar plenamente se a cúpula de Cingapura pôs os dois países na trilha do entendimento. Trump e o secretário de Estado, Mike Pompeo, que vem tendo e continuará a ter papel decisivo nessas negociações nucleares, têm sido taxativos quanto a Kim ter de eliminar sua capacidade de produzir armas nucleares. Com suas críticas e subsequente retirada do acordo nucelar com o Irã negociado durante o governo Obama, Trump criou sobre si uma grande expectativa em relação à Coreia do Norte. Portanto, ele tem de produzir um acordo inquestionável.

Se o encontro de terça-feira for apenas um começo, como poderá ser avaliado? Pessoas com experiência em segurança nacional acham que um critério de avanço, além a química pessoal que possa ocorrer entre Trump e Kim, seria um quadro que inclua um compromisso explícito dos norte-coreanos de se desnuclearizarem; uma disposição da parte deles de limitar  seu programa de mísseis balísticos (não apenas aqueles de longo alcance que podem atingir os Estados Unidos, mas também os que ameaçam os vizinhos mais próximos); e a aceitação de um sistema de verificação intrusivo.     

+ Trump confiará mais no 'instinto' do que em formalidades durante cúpula com líder norte-coreano

Em troca, os Estados Unidos ajudariam a chegar a um tratado de paz entre as Coreias do Norte e do Sul; prometeriam não invadir a Coreia do Norte; acenariam com a possibilidade de relações diplomáticas caso Pyongyang se mantenha fiel a suas promessas;  e eventualmente dariam ajuda econômica à Coreia do Norte. Tudo isso seria normal e esperado em tais negociações. Vale lembrar, porém, que “normal” e “esperado” nem sempre constam do vocabulário do  presidente americano.

O alcance da atenção de Trump é notoriamente curto e ele frequentemente muda de foco – está aí para servir de lembrete a   chuva de tuítes matutinos em torno da investigação do promotor especial Robert Muller sobre a Rússia. Será que agora o presidente  terá dedicação e paciência para enxergar através do que poderá ser uma longa negociação, com retrocessos ao longo do caminho?

Na verdade, em sua presidência Trump até agora mais contrariou que respeitou as regras da política exterior. Enquanto isso, ele ainda precisa fazer mudanças que devolvam os EUA a sua posição de força. Como escreveu recentemente Susan Glasser em The New Yorker, “Trump é melhor em romper do que em fechar acordos”.    

+ A cúpula de Cingapura

Além do acordo nuclear com o Irã, Trump retirou os Estados Unidos da Parceria Transpacífica e do Acordo de Paris sobre o clima. Suas políticas comerciais e pronunciamentos vêm causando atritos, por vezes desnecessários, com vários países e estão influenciando negativamente as próximas eleições mexicanas.

Na sexta-feira ele jogou uma bomba nas conversações com aliados dos EUA ao sugerir que a Rússia, excluída do G-8 após  ter anexado a Crimeia, deveria ser trazida de volta. O improvisado comentário provocou críticas de outros membros do agora G-7.  

Para alguns especialistas em política exterior, a cúpula de terça não ocorreria se não fosse pela abordagem procativa que Trump adotou no início de sua presidência sobre o líder que ele depreciativamente chama de “Homem Foguetinho”. Outros sugerem que os tuítes e ameaças de “fogo e fúria” foram muito menos importantes do que certos fatores fora do controle de Trump para se chegar a essa cúpula.

“Não surpreende que tenhamos chegado a essa fase de ruptura levando-se em conta a personalidade de Trump e o porquê de ele ter sido eleito, e considerando-se que está empenhado em agir a sua maneira”, disse Stephen Hadley, conselheiro para segurança nacional do presidente George W. Bush. “A pergunta agora é: pode ele fazer acordos diferentes?” A cúpula de Cingapura será um teste inicial para a capacidade  de Trump de mudar – e sua disposição para isso. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.