Greg Nash/Pool/AFP
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Análise: Reunificação, a tarefa central

Sociedade americana está profundamente dividida por uma desigualdade crescente, que foi escancarada pela pandemia da covid-19, e pelas políticas sectárias de Trump e de seus seguidores

Paulo Sotero*, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 05h00

Donald J. Trump deixou Washington na quarta-feira, 20, sem pompa ou circunstância, depois de fazer um pífio discurso improvisado de autoexaltação, reduzido por sua própria irresponsabilidade a um dos piores, senão o pior, presidente da história dos Estados Unidos. 

A Joseph R. Biden Jr., ex-senador e ex-vice-presidente empossado como o 46.º presidente da mais antiga democracia contínua da história, caberá agora a hercúlea tarefa de reunificar uma sociedade profundamente dividida por uma desigualdade crescente, que foi escancarada pela pandemia da covid-19, e pelas políticas sectárias de Trump e de seus seguidores. A necessidade de distanciamento social imposta pela pandemia e os efeitos de um fracassado levante terrorista insuflado pelo próprio Trump duas semanas antes de deixar o poder, numa vã mas danosa tentativa de anular o veredicto popular das eleições de novembro e permanecer na Casa Branca, alteraram a fisionomia da capital americana e fizeram da cerimônia a primeira transição não pacífica nos quase 250 anos da República. O sol radiante num céu azul de inverno não atenuou a tensão que marcou a inauguração da nova administração.

Com Washington transformada em praça forte pela presença de mais de 25 mil soldados em uniformes de campanha, Biden iniciou seu governo com um discurso sem floreios, como é seu estilo. Ele enalteceu o triunfo da democracia no ataque ao Capitólio, sede do Congresso, e afirmou que “este é nosso momento histórico de crise e desafio”. 

Mais velho presidente ao tomar posse, aos 78 anos, o novo líder prometeu reverter o legado de Trump, que descreveu com “uma aberração”, e restaurar o que chamou “a alma” do país. As primeiras medidas incluem medidas emergenciais, como a aprovação de auxílio federal aos milhões que perderam seus empregos por causa da covid, as políticas de imigração, que serão liberalizadas, e a retomada pelos EUA dos compromissos do Acordo de Paris da Convenção sobre Mudanças Climáticas, repudiados por Trump. 

A prioridade máxima será a contenção da pandemia, que já matou mais de 400 mil americanos, e seguirá como um obstáculo para uma retomada vigorosa da economia até que a campanha de vacinação atinja a maioria da população adulta, o que pode demorar meses.

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Biden e Kamala Harris sabem que a despeito do fracasso da tentativa de golpe orquestrada por Trump e seus seguidores, a manobra deixou sequelas. Uma delas, não desprezível, afeta o prestígio e a influência dos EUA no mundo. Um país onde os governantes acostumaram-se a se vangloriar como líderes uma nação única, marcada por uma suposta excepcionalidade e superioridade que a diferenciava de todas as demais, viu-se diminuído aos olhos de seus próprios cidadãos e das nações do mundo.

* JORNALISTA, É PESQUISADOR SÊNIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON

 

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