ANÁLISE-Revolta árabe provoca ansiedade na Ásia

A agitação no mundo árabe é igual a um repique inflacionário no preço do petróleo que é igual ao risco de levante social.

ALAN WHEATLEY, REUTERS

31 de janeiro de 2011 | 17h41

Essa é a dura equação de economia política enfrentada pelos governos na Ásia, incluindo o da China, enquanto buscam tirar lições do levante popular da Tunísia e dos confrontos letais no Egito.

Seria pouco eficaz achar que a revolta dos árabes, que são privados de muitos de seus direitos, será traduzida por uma pressão similar por mudanças na Ásia.

Seria tão errado quanto, porém, assumir que a região não tem nada a aprender com as causas da revolta na Tunísia e no Egito, incluindo alto desemprego, a diferença abissal entre ricos e pobres e a frustração com a falta de liberdade política.

"Haverá um foco maior sobre o risco político e social no ano que entra", disse Bob Broadfoot, da consultoria Political & Economic Risk Consultancy Ltd, em Hong Kong.

As incógnitas econômicas incluem desde a alta dos preços do petróleo, caso os protestos se espalhem para os grandes produtores do Oriente Médio, até o impacto nas Filipinas com uma possível redução nas remessas enviadas por milhares de migrantes que trabalham na região.

A avaliação inicial de Broadfoot é que o levante que ocorre agora não causará tanto impacto quanto, digamos, a crise do subprime dos EUA, que levou ao colapso das exportações asiáticas enquanto o sistema financeiro global cambaleava.

"Não acredito que o resultado econômico direto vá ser tão profundo a ponto de levar os países em desenvolvimento da Ásia a perderem mais força do que aconteceria de qualquer forma", disse ele. Depois de um 2010 excepcionalmente forte, o crescimento este ano ainda deve chegar a uma média de 6 por cento.

"Mas eu me preocupo com o lado político", disse Broadfoot. "Isso poderá mudar o status quo e coloca em dúvida as conjecturas feitas no início do ano."

CHINA ESTÁ ATENTA

Dominique Dwor-Frecaut, estrategista do Banco Real da Escócia, em Cingapura, disse que o risco de contágio político para outros mercados emergentes se limita principalmente ao Oriente Médio.

Indonésia e Malásia, ambos países de maioria muçulmana, são democracias estabelecidas e não parecem estar sob risco de manifestações amplas contra o governo, afirmou ela.

"Por outro lado, mercados emergentes com baixa renda per capita, incluindo a Indonésia, deverão ficar mais atentos ao aumento do preço dos alimentos, possivelmente por meio de uma mescla de subsídios e endurecimento adicional na política", escreveu ela em um blog.

No que diz respeito à China, o Partido Comunista (do governo) reiterou a sua preocupação com questões de estabilidade política ao restringir alguns comentários na Internet sobre os protestos no Egito.

Os levantes de 2009 na região de Xinjiang, no extremo oeste do país, onde os muçulmanos são uma minoria considerável da população, mostraram a Pequim como a aparência de calma social pode mudar de repente. Quase 200 pessoas morreram em conflitos étnicos.

"A Tunísia e o Egito trouxeram isso para a liderança e eles sem dúvida se preocupam com o potencial de mudança", disse Alistair Thornton, analista do IHS Global Insight, em Pequim.

Um desses gatilhos é a inflação, que já está em 4,6 por cento e pode aumentar mais, de acordo com o governador do banco central chinês, Zhou Xioachuan.

O risco é que o petróleo mais caro traga inflação e aumente os custos domésticos com os alimentos, ao elevar os gastos dos agricultores com transportes e fertilizantes.

"Eles ficarão muito preocupados com as implicações sociais que isso tem, já que uma boa parte da renda das pessoas vai diretamente para a comida", afirmou Thornton.

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