Análise: Revolta no mundo árabe é início de processo longo e incerto

Modelo ocidental, turco, iraniano e Al-Qaeda disputam futuro árabe.

Roger Hardy, BBC

02 de fevereiro de 2011 | 16h45

Líderes árabes assistem à revolta no Egito com crescente apreensão

A ordem árabe está se desintegrando. Mas se ela entrará em colapso ou se de alguma forma se reinventará é cedo para prever.

Os líderes árabes, do norte da África ao Golfo, em países ricos e pobres, estão no mesmo barco.

Sem exceção, eles presidem autocracias corruptas com pouca ou nenhuma legitimidade aos olhos de seus povos.

Todos eles, agora, assistem aos "dias de revolta" no Egito com crescente apreensão. No destino do debilitado líder egípcio, Hosni Mubarak, 82 anos, eles enxergam seus próprios destinos.

Comentaristas ocidentais estão certos em dizer que os protestos são sobre "eles", e não sobre "nós".

Cumplicidade

A raiva dos manifestantes é, em sua maioria, direcionada para dentro - para uma ordem árabe falida - e não para fora, para Israel, os Estados Unidos ou o Ocidente.

Em sua maioria, mas não inteiramente. O Ocidente é cúmplice da autocracia árabe.

Por décadas, líderes americanos e europeus escolheram a estabilidade em detrimento da democracia. Agora eles estão pagando o preço.

O presidente George W. Bush tentou, brevemente, impor uma "agenda de liberdade" no Oriente Médio, mas ela falhou, e velhos autocratas puderam uma vez mais respirar livremente.

Agora, líderes ocidentais, incluindo Barack Obama, se tornaram meros espectadores enquanto os acontecimentos se sucedem com velocidade rumo a um desfecho que ninguém pode prever.

Modelos

Outros também são espectadores, mesmo que finjam o contrário. O Irã está agindo como se as massas árabes estivessem seguindo, com atraso, o exemplo da revolução Khomeini.

De fato, se os jovens manifestantes têm um modelo - e alguns negam tê-lo -, é a democrática Turquia, e não o teocrático Irã.

Outro espectador é a Al-Qaeda, cuja pretensão de se tornar a voz dos árabes e do descontentamento muçulmano foi alvejada.

A quem o futuro pertence?

Analistas fariam bem em exercitar um pouco a humildade.

Meu palpite, tenha ou não algum valor, é que isso não é o início de uma primavera árabe, mas algo mais confuso e longo.

A velha ordem ainda tem muito a lutar.

A batalha para o futuro árabe está começando. Já que as apostas são altas, a luta será feroz.

Roger Hardy é especialista em políticas públicas do Woodrow Wilson Center, em Washington DC. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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