Alexander NEMENOV / AFP
Alexander NEMENOV / AFP

Análise: Rússia, o problema de Trump na Venezuela, contesta hegemonia

Moscou está tentando compensar o ônus das sanções dos EUA à petrolífera estatal da Venezuela, ajudando o regime de Maduro a refinar seu petróleo bruto

Ishaan Taroor / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2019 | 05h00

Há alguns meses, altos funcionários do governo Donald Trump falaram confidencialmente sobre o iminente colapso do regime venezuelano. Agora se preparam para uma disputa mais incerta e prolongada. Nicolás Maduro conta com o firme apoio de governos mais amigáveis, incluindo China, Turquia e especialmente a Rússia.

Até agora, o Kremlin não o decepcionou. Ele está tentando compensar o ônus das sanções dos EUA à petrolífera estatal da Venezuela, ajudando o regime de Maduro a refinar seu petróleo bruto. A Rússia também tem aumentado as vendas de trigo e continua com suas remessas de suprimentos médicos extremamente necessários.

Esta semana, um diplomata russo em Caracas disse que uma delegação de autoridades venezuelanas é aguardada em Moscou para discutir investimentos russos nos setores de mineração, agricultura e transportes da Venezuela.

Mas desconcertante, para os americanos, foi o que aconteceu no final de março. Dois aviões carregados com cerca de cem militares russos desembarcaram na Venezuela. O motivo declarado para sua chegada foi o de ajudar no reparo de sistemas de defesa aérea S-300 comprados da Rússia, que podem ter sido danificados em meio aos apagões cada vez mais frequentes do país. A notícia seguiu-se a relatos anteriores de mercenários russos ou militares privados contratados que já operavam como garantia para o problemático regime.

O dinheiro também desempenha um papel considerável no envolvimento da Rússia. Mas a maioria dos analistas acredita que o impacto financeiro importa menos para o Kremlin do que sua credibilidade internacional. 

O general Valeri Gerasimov, principal estrategista militar da Rússia, disse em uma conferência no início do ano que as ações americanas na Venezuela faziam parte de um projeto de hegemonia mais amplo que exigia a “liquidação de governos de países inconvenientes e o enfraquecimento da soberania”. Aqui estava outro exemplo, ele parecia sugerir, onde Moscou poderia defender sua visão do sistema internacional.

Mas fazer isso pode representar um desafio. “Há um entendimento de que (a Venezuela) é um teste bastante sério para a capacidade da Rússia de agir em defesa de seus interesses globalmente”, disse a meus colegas Dmitri Trenin, chefe do centro independente de pesquisa Carnegie Moscow Center.

Apesar de toda a retórica rígida – incluindo a invocação da Doutrina Monroe do século 19 – o governo Donald Trump também está cautelosa quanto a provocar uma conflagração maior. “Embora tenha havido lembretes de que ‘todas as opções estão sobre a mesa’, não há indicação de que qualquer intervenção militar – que tenha uma longa e infeliz história na América Latina – esteja sendo seriamente considerada”, observou David Sanger, do New York Times. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É JORNALISTA

 

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