Francisco Seco/AP
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Análise: Saída britânica é como se o Texas se separasse dos EUA

Brexit significa potencialmente perda de influência do bloco europeu

Steven Erlanger, The New York Times

31 de janeiro de 2020 | 05h00

Para a União Europeia, a saída do Reino Unido significa uma perda em tamanho, alcance, impulso e estabilidade comparável, por exemplo, à saída do Texas dos EUA. “O Brexit é uma derrota, uma rebelião contra o conceito de que trabalhar juntos nos faz mais forte”, disse Rosa Balfour, do centro de estudos americano German Marshall Fund.

O Brexit significa potencialmente perda de influência do bloco europeu. “Em qualquer nova negociação – sobre comércio, clima, defesa –, a UE terá menos peso do que tinha quando o Reino Unido era membro”, disse Paul Taylor, do centro de pesquisas Friends of Europe.

Ao mesmo tempo, o choque do Brexit levou a uma unificação dos 27 países que permaneceram que não é encontrada na discussão de nenhum outro tema – migração, Rússia, orçamento ou mesmo a suposta moeda comum, o euro. Pelo menos nas negociações com o Reino Unido, os 27 permaneceram unidos, para grande desapontamento de Londres, e não se falou mais em saída de outros países.

Apesar de o Brexit no início causar pânico em Bruxelas, acabou se mostrando mais como vacina que epidemia, notou Josep Borrell Fontelles, responsável pela política exterior do bloco. O processo foi tão doloroso e caótico para o Reino Unido que mesmo populistas europeus pararam de falar em coisas como “Frexit, “Nexit” ou “Italexit”, referindo-se a França, Holanda e Itália.

Como o mesmo funcionário europeu que conduziu as negociações em nome do bloco está encarregado de negociar o futuro relacionamento da UE com o Reino Unido, é de se esperar uma unidade semelhante. Mas as novas negociações terão caráter defensivo, com Bruxelas empenhada em manter a integridade do mercado único, apesar do desejo de conservar próximo o grande vizinho.

As negociações serão ao mesmo tempo complicadas e limitadas, dado o tempo exíguo. O período de transição, durante o qual haverá poucas mudanças, apesar da formalização do Brexit, vai só até o final do ano.

Líderes da UE, como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propõem que se trabalhe “dia e noite” para se forjar um relacionamento próximo com o Reino Unido. Mas as perdas serão inevitavelmente sentidas nos próximos anos.

“É uma derrota para todos – para o projeto europeu, para a posição britânica no mundo e para os interesses americanos, uma vez que os EUA eram os maiores beneficiários do Reino Unido na UE”, disse Ian Lesser, ex-diplomata americano que hoje dirige o escritório do German Marshall Fund em Bruxelas.

A economia do Reino Unido é mais ou menos equivalente à da França, segunda maior economia da UE. O Reino Unido é uma importante parceira no campo da segurança e uma potência nuclear com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Reino Unido tem um estreito relacionamento com Washington e é o segundo maior contribuinte com o orçamento do bloco europeu, aportando quase 12%.

Ao mesmo tempo, a UE é a maior parceira comercial do Reino Unido, consumindo 45% das exportações britânicas e exportando 53% do que a ilha compra, segundo dados de 2018. Se o Reino Unido escolher divergir significativamente das regulamentações da UE, o impacto no comércio será sério para os dois lados. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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