Tamir Kalifa/The New York Times
Tamir Kalifa/The New York Times

Análise: Sanders comete erro estratégico ao radicalizar discurso

Democrata tem de começar a atrair os votos daqueles que não são seu eleitorado óbvio

David Leonhardt*, The New York Times

26 de fevereiro de 2020 | 05h00

WASHINGTON - Os quatro presidentes mais recentes – Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama e Donald Trump – são quatro políticos muito diferentes entre si.  Mas há entre eles uma semelhança fundamental: todos tentaram atrair votos que não eram do seu eleitorado óbvio. 

Clinton prometeu uma “terceira via”, diferente das tradicionais políticas dos democratas e republicanos. Bush se candidatou com base em um conservadorismo de rosto humano. Obama disse que os americanos democratas e republicanos tinham mais em comum do que alegavam os especialistas.

Até Trump, por mais radical que seja, deixou de lado a ortodoxia republicana ao falar como um democrata populista a respeito da seguridade social, o sistema de saúde e o comércio. As pesquisas de opinião mostraram que os eleitores consideraram Trump um candidato mais moderado do que qualquer outro republicano desde os anos 1970.

A arte de atrair o eleitorado volúvel — aquele no meio do espectro político, sem lealdade ideológica — pode ser a habilidade mais importante da política. E, para tanto, não é necessária uma pauta de políticas centristas e apaziguadoras. Trump deixou isso claro. O mesmo fizeram Ronald Reagan e Franklin D. Roosevelt em eras anteriores.

Como? Compreendendo que a política é inelutavelmente performática. O eleitorado responde aos sinais que enxerga. Responde a gestos de respeito de políticos que, na prática, estão dispostos a dizer: talvez não concordemos em relação a tudo, mas enxergo vocês e entendo o que vocês consideram importante.

A esquerda americana, agora cheia de energia, parece rejeitar essa abordagem, optando em vez disso por acreditar em um reconfortante mito a respeito da extinção dos eleitores indecisos e do poder invencível do comparecimento às urnas. Esse é um grande erro.

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Antes de continuar, quero deixar claro que essa não é uma coluna insistindo para que os democratas retornem ao centrismo dos Clintons. Minha argumentação é outra: ao insistir em uma versão ortodoxa do progressismo, a esquerda está prejudicando sua própria capacidade de vencer a eleição e promover amplas mudanças.

Em outras palavras: quem pode me indicar uma forma de sinal de respeito demonstrado por Bernie Sanders ao eleitorado que não faz parte de sua base de apoio?

Ele adotou posicionamentos liberais quase maximalistas em relação a todos os principais temas. É algo que chama a atenção no caso dele, que demonstrou ao longo da carreira compreender a importância de se construir uma coalizão. Sanders já conquistou o eleitorado operário de Vermont com a ajuda de um posicionamento moderado em relação às armas.

“Precisamos de um debate razoável em torno do controle de armas que supere a divisão cultural existente no país”, disse ele em 2015, “e acredito que posso desempenhar um papel importante nisso”. 

Ele já foi o herdeiro do ceticismo sindical diante da imigração em larga escala. “Em um momento em que a classe média está encolhendo, a última coisa que precisamos fazer é trazer ao país ao longo de anos milhões de pessoas preparadas para reduzir o salário dos americanos”, disse ele em 2007.

Mas, agora, Sanders evidentemente decidiu que os progressistas não vão mais aceitar impurezas — e nem mesmo termos taticamente vagos. Ele e Elizabeth Warren adotaram políticas que são populares somente entre a esquerda: proibição da fragmentação hidráulica do xisto; descriminalização da fronteira; oferta de benefícios do sistema federal de saúde a imigrantes não autorizados; eliminação do seguro-saúde privado.

Para muitos progressistas, cada um desses tópicos se tornou um teste de moralidade. Qualquer restrição à imigração é considerada uma violação dos direitos humanos. Qualquer concessão em relação às armas ou ao sistema de saúde equivale a aceitar mortes evitáveis.

E eu entendo o raciocínio dos progressistas diante desses temas. Mas transformar cada concessão em uma falha moral existencial não é um jeito inteligente de praticar a política. É algo que reassegura os convencidos e afasta os convencíveis.

FDR e Reagan compreendiam isso, bem como Abraham Lincoln e muitos outros grandes reformadores da sociedade, entre eles Frederick Douglass, Jane Addams, Martin Luther King Jr. e Cesar Chavez. Movimentos políticos fortes podem aceitar a impureza em relação a temas individuais no serviço de uma meta maior: vencer.

As impurezas ainda vão render queixas amargas, é claro. FDR e Reagan foram ambos criticados duramente pelos próprios aliados em certas ocasiões. Mas poucos desses aliados os abandonaram. A vitória ajuda na cicatrização das feridas.

Ao longo dos anos mais recentes, a esquerda progressista alcançou avanços impressionantes, trazendo para o centro do debate propostas como o salário mínimo de US$ 15 por hora, a ampliação do sistema de saúde e o ensino superior gratuito. Sanders, uma figura central desse movimento, é agora o favorito para ficar com a candidatura democrata.

Mas os progressistas ainda estão longe de alcançar as mudanças que almejam. Os republicanos controlam o senado, e a suprema corte é governada por uma maioria conservadora. Trump tem excelentes chances de conseguir a reeleição e dar início a uma era sombria para o progressismo americano.

Diante da perspectiva de um grande avanço ou uma derrota histórica, os progressistas fariam bem se deixassem de acreditar somente naquilo que querem. Não recortem dados de pesquisas de opinião para alegar que a maioria dos americanos de fato é a favor da proibição ao seguro saúde privado. 

Não imaginem que milhões de progressistas até então adormecidos vão se materializar no dia da eleição. Nas intercalares de 2018, candidatos parecidos com Sanders perderam distritos volúveis, enquanto candidatos que demonstraram respeito aos indecisos saíram vitoriosos em vários casos.

Derrotar Trump em novembro será ainda mais difícil. E concessões pouco confortáveis tornarão essa perspectiva mais provável.

Para Sanders, isso pode significar um recuo em relação à proibição à fragmentação hidráulica, que ameaça suas chances da decisiva Pensilvânia. Também pode significar a repetição de alguns de seus argumentos anteriores a respeito da necessidade de segurança na fronteira e restrições à imigração.

Muitos eleitores de classe trabalhadora concordam com isso, incluindo o eleitorado não-branco.  Sanders não é um candidato democrata ideal. Mas tem algumas qualidades importantes. Uma delas é o apoio apaixonado que ele inspira, o que dá a ele uma oportunidade de conquistar novos eleitores ao mesmo tempo que conserva intacta sua base.

*É JORNALISTA

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