REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana
REUTERS/Ajeng Dinar Ulfiana

Análise: Se recusar a usar máscara é como dirigir bêbado

Ao contrário do que diz o presidente Trump, o uso da máscara não é uma opção pessoal sem consequências para a sociedade

Nicholas Kristof, NYT, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2020 | 03h00

WASHINGTON - À medida que o coronavírus se propaga sem controle em boa parte dos Estados Unidos, os americanos agem curiosamente indefesos.

Se tivéssemos sido passivos em 1776 ainda hoje faríamos parte da Grã-Bretanha. Mas no momento em que nos preparamos para comemorar o Quatro de Julho (Dia da Independência) parece que não estamos dispostos a afirmar a independência de um vírus que, em quatro meses, matou mais americanos do que as guerras da Coreia, Vietnã, do Golfo, Afeganistão e Iraque num período de 70 anos.

Eis a medida mais simples que devemos tomar: usar máscara.

Nos Estados Unidos, o uso da máscara demora para ser aceito, especialmente no caso dos homens, comparado com outros países. Uma pesquisa concluiu que muitos americanos consideram o uso um “sinal de fraqueza” e a recusa do presidente Trump em usá-la sugere que ele também acha que máscaras são para os frouxos.

Trump pode estar mudando de opinião pois disse à Fox Business na quarta-feira 1.º de julho ser “totalmente a favor das máscaras” e que usará uma quando estiver numa situação de muita proximidade com as pessoas”. Ele não devia perder tempo e colocar no seu Twitter uma foto sua com máscara e apelar a seus eleitores a portarem máscaras também. Essa recusa das pessoas a cobrirem seu rosto com uma máscara é imprudente, um comportamento egoísta que põe em perigo a economia e pode matar ou colocar em risco pessoas inocentes.

Uma análise de 172 estudos na revista The Lancet concluiu que “o uso da máscara tem como resultado uma grande redução do risco de infecção”. Um artigo na Health Affairs também concluiu que a ordem de alguns Estados, que abrangem metade da população do país, obrigando as pessoas a usarem máscaras, pode ter evitado mais de 230 mil infecções pelo coronavírus.

Num estudo realizado este ano e informado no Clinical Infectious Diseases, os pesquisadores colocaram hamsters com o coronavírus em gaiolas próximas daqueles sem o vírus e perceberam que, quando máscaras cirúrgicas foram usadas como barreira entre as gaiolas, as infecções caíram mais da metade.

Ou vamos aprender com os países do leste asiático onde o uso de máscaras é mais comum e um sinal de cortesia, que conseguiram controlar o vírus. Kwok-Yung Yuen, especialista em doenças infecciosas na Universidade de Hong Kong, me disse que uma razão crucial do sucesso de Hong Kong contra a covid-19 (menos de uma morte por milhão de habitantes, comparado com 385 por milhão nos Estados Unidos) é que 97% dos cidadãos usam máscaras. “O uso da máscara é sinal de responsabilidade civil”, disse ele.

Hong Kong, como alguns países asiáticos, distribuem máscaras gratuitamente. Os Estados Unidos deveriam agir da mesma maneira pois seu custo é desprezível comparado com a hospitalização.

Vidas salvas

Um modelo de computador criado por uma universidade de Washington sugere que 33 mil vidas de americanos podem ser salvas até primeiro de outubro se mais pessoas usarem máscaras. A conclusão é de que os americanos displicentes que não pretendem usá-la podem nos próximos meses matar milhares dos seus vizinhos.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

“Temos de fazer tudo o que for possível para aumentar o uso das máscaras”, disse Kate Grabowski, epidemiologista da Johns Hopkins University, acrescentando que “as pessoas não devem achar que as máscaras são um santo remédio. Elas não são 100% eficazes para impedir o contágio”.

Assim, mesmo com máscaras é preciso respeitar o distanciamento, lavar as mãos, monitorar os contatos e manter a proibição de grandes aglomerações de pessoas. Eu também acredito muito em testes para detectar o vírus em águas residuais de modo a se ter sinais precoces de que o vírus está presente na vizinhança.

Certamente precisamos de mais pesquisas e as máscaras variam em termos de eficácia. As máscaras N95 funcionam muito bem - tão bem que tornam nossa respiração difícil. As máscaras cirúrgicas descartáveis são mais confortáveis, mas protegem menos e as de tecido são reutilizáveis, mas não eficientes.

As máscaras protegem o seu vizinho, mas um novo informe do Goldman Sachs indica que ampliar as medidas de obrigatoriedade das máscaras também vai auxiliar a economia americana.

“Uma ordem no plano nacional obrigando todos a usarem máscaras faciais tem potencial para substituir os repetidos lockdowns que subtraem quase 5% do Produto Interno Bruto (PIB). O benefício econômico decorrente do uso obrigatório de máscaras e do seu aumento, pode ser considerável”, diz o informe.

Os republicanos parecem estar se convencendo disto. No início, o vice-presidente Mike Pence rejeitou as máscaras, mas agora diz que usá-las “é uma boa ideia”. O senador Marco Rubio tem insistido no uso da máscara. Liz Cheney colocou uma foto do seu pai, o ex-vice-presidente Dick Cheney, no Twitter,  usando uma, com a hashtag #realmenwearmasks. Bom para eles!”.

Mas Trump resistiu. Os republicanos têm um belo discurso sobre “responsabilidade pessoal”, de modo que está na hora de Trump mostrar alguma e apelar a seus eleitores a usarem máscaras também. Quando comemoramos nossa independência é desta maneira que podemos mostrar nosso patriotismo, proteger a economia e salvar vidas de pessoas nas proximidades.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Kayleigh McEnany, evita perguntas sobre Trump e máscaras e insiste que o uso delas é uma “opção pessoal”.

Não. Não é. A recusa em usar uma máscara não é uma “opção pessoal” diferente do que beber todas as noites e entrar cambaleando no seu carro e cair na estrada. Em uma época de peste, rejeitar o uso de uma máscara facial é como dirigir bêbado e colocar em risco todos aqueles que você encontra no seu caminho. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.