Abir Sultan / EFE
Abir Sultan / EFE

Análise: Solução para impasse pode estar dentro do próprio partido de Bibi

A resposta desafiadora de Netanyahu indica que os israelenses terão pela frente um longo período de turbulência

Josef Federman e Aron Heller *, The Associated Press

22 de novembro de 2019 | 06h08

O indiciamento de quinta-feira não obriga Binyamin Netanyahu a renunciar, mas enfraquece significativamente o primeiro-ministro em um momento em que o sistema político de Israel parece estar caminhando para sua terceira eleição em menos de um ano. A resposta desafiadora de Netanyahu, juntamente com os pedidos de renúncia feitos por seus rivais, indicam que os israelenses terão pela frente um longo período de turbulência. 

O partido Azul e Branco, liderado pelo principal rival de Netanyahu, o general Benny Gantz, afirma que o premiê não tem “nenhum mandato ou moral para tomar decisões pelo Estado de Israel”. O procurador-geral, Avichai Mandelblit, após três anos de investigações, criticou na quinta a pressão de apoiadores e inimigos do premiê para influenciar sua decisão a respeito do indiciamento. “Esta não é uma questão de direita ou de esquerda. Isto não é questão de política”, disse Mandelblit. “O dia em que um procurador-geral decide indiciar um primeiro-ministro é um dia triste para Israel.”

A decisão, no entanto, chega em um momento tumultuado. Após uma eleição inconclusiva, em setembro, Netanyahu e Gantz fracassaram na formação de uma coalizão no Parlamento. É a primeira vez na história de Israel que isso acontece. Agora, os israelenses entram em um período sem precedentes de 21 dias, no qual qualquer deputado pode tentar reunir uma maioria de 61 votos para se tornar primeiro-ministro. Se ninguém conseguir, novas eleições serão convocadas.

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Netanyahu está desesperado para permanecer no poder e se livrar das acusações. Segundo a lei israelense, funcionários públicos são obrigados a renunciar se forem acusados de um crime. A lei, no entanto, não se aplica ao primeiro-ministro, que pode usar seu cargo como um púlpito contra os promotores e pressionar o Parlamento para obter imunidade. 

O esforço para permanecer no poder passa por manter seu posto de líder no seu partido, o Likud. Até bem pouco tempo, a liderança de Netanyahu era incontestável. Agora, contudo, os primeiros sinais de rebelião começam a aparecer. O principal rival de Bibi dentro da legenda é Gideon Saar, que pediu a realização de um votação prévia para definir um novo líder, caso Israel realmente caminhe para uma nova eleição - como esperado. “Acho que posso formar um governo e unir o país”, disse Saar durante uma conferência em Jerusalém. 

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De fato, a única saída para evitar uma nova votação seria um governo de união entre o Likud e o partido Azul e Branco, o que só poderia ocorrer sem a presença de Netanyahu. O nome de Saar poderia romper o impasse político, mas desafiar o premiê dentro do partido é uma manobra arriscada. O Likud teve apenas quatro líderes em mais de 70 anos e seus eleitores valorizam ferozmente a lealdade. 

Ex-advogado e jornalista, Saar começou na política há 20 anos pelas mãos de Netanyahu, que o nomeou seu secretário de gabinete. Ele rapidamente subiu nas fileiras do Likud, colecionando passagens bem-sucedidas como ministro da Educação e do Interior. Não demorou muito para Bibi vê-lo como uma ameaça. Saar deixou a política em 2014 para se dedicar à família, mas agora está de volta. Apesar de suas posições duras, ele é respeitado em todos os espectros políticos e pode ser um parceiro mais confiável para uma coalizão com Gantz. 

* São jornalistas

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