Tim Keeton/EFE/EPA
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Análise: Sombra da Segunda Guerra paira sobre pandemia

Na Europa, o trauma se esconde em apelos por unidade e solidariedade; nos EUA, a grande mobilização de recursos e mão de obra em tempo de guerra reflete uma ameaça existencial parecida

Ishaan Tharoor, The Washington Post

12 de maio de 2020 | 06h00

O coronavírus nos lembrou o quanto a 2.ª Guerra ocupa a imaginação do Ocidente. Milhões de pessoas morreram em seis anos de conflito, um horror que serve de referência para grande parte do mundo. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que o vírus representa “a crise mais desafiadora desde a 2.ª Guerra”. Na semana passada, Donald Trump descreveu o “ataque” da doença como sendo “pior que Pearl Harbor”, ação do Japão, em 1941, que levou os EUA ao conflito. Boris Johnson, sempre invocando seu herói Winston Churchill, usou seu legado. “A luta contra o coronavírus exige o mesmo espírito que Churchill teve há 75 anos”, disse.

Os historiadores olham para a experiência da 2.ª Guerra em busca de lições úteis para o momento atual. Na Europa, o trauma se esconde em apelos por unidade e solidariedade. Nos EUA, a grande mobilização de recursos e mão de obra em tempo de guerra reflete uma ameaça existencial parecida. Mas, claro, há um limite para essas metáforas. 

Em termos geopolíticos, Trump e os nacionalistas do mundo todo estão mais interessados em romper do que preservar a ordem política e econômica do pós-guerra. O euroceticismo está tão forte quanto estava antes do vírus. E, para grande parte da Ásia e da África, a 2.ª Guerra não significou a paz, mas o início da descolonização, outra história impregnada de sangue e atrocidades.

Alguns especialistas otimistas buscam sinais de que a pandemia pode significar renovação. “Podemos perdoar a linguagem egoísta de nossos líderes se isso vier acompanhado do espírito da guerra, que redefiniu e expandiu os limites do possível”, escreveu Margaret MacMillan, historiadora da Universidade de Oxford. “O que parecia fantástico – produzir penicilina em massa, dividir o átomo, fabricar motores a jato – rapidamente se tornou realidade. Essa inovação também pode acontecer agora.”

Mas figuras como Trump e Johnson, cujos partidos têm aversão a gastos sociais, não são o tipo de estadistas que defendiam o New Deal ou a criação do Serviço Nacional de Saúde britânico. “Muitas das ações que colocaram os EUA em pé de guerra, nos anos 40, foram consequências da tentativa de Franklin Roosevelt de equipar o governo para superar a Grande Depressão”, escreveu Charles Edel, da Universidade de Sydney. “A criação de novas agências e organizações importava menos do que a disposição de experimentar com ousadia, persistência e rapidez para aliviar a vida de milhões de americanos. Esses hábitos foram esquecidos.”

Talvez a maior lição da 2.ª Guerra não seja liderança, coragem ou sacrifício, mas algo mais tectônico e imperceptível. “Do ponto de vista do século 21, se existe uma grande narrativa histórica que faz jus ao significado de 1945, não é a de organizações internacionais, como as instituições de Bretton Woods ou os Estados de bem-estar social”, escreveu Adam Tooze, da Columbia University. “É, antes de mais nada, o que os historiadores do século 21 chamam de ‘Grande Aceleração’: a dramática apropriação da natureza pela humanidade. A 2.ª Guerra, em suas dimensões globais e em sua intensidade violenta, antecipou e impulsionou esse processo, que continua até hoje.”

 

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