AFP PHOTO / RONALDO SCHEMIDT
AFP PHOTO / RONALDO SCHEMIDT

Análise: Surpreende a violência ainda moderada

Ambos os lados passaram a respeitar um conjunto de regras não escritas sobre a violência admissível

Francisco Toro / Washington Post, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2017 | 05h00

Os protestos de rua que convulsionaram a Venezuela nos últimos três meses e meio diversas vezes se tornaram violentos: 104 pessoas já morreram. No entanto, o aspecto mais surpreendente do movimento não é o excesso de violência, mas sua moderação. Os manifestantes têm muitas razões para se enfurecer. O governo age de maneira cada vez mais ditatorial.

Alimentos e remédios estão escassos. A economia continua desmoronando. No entanto, quem participa das manifestações de rua raramente apela para ãções letais.

Em grande medida, as forças de segurança também se restringem a meios não-letais para reprimir os manifestantes. Por isso, a violência é recorrente, mas as mortes são relativamente raras. A Venezuela ainda está muito longe da Líbia ou da Síria, onde os regimes apontaram metralhadoras contra as multidões desde o primeiro dia.

Desde o início de abril, ambos os lados passaram a respeitar um conjunto de regras não escritas sobre a violência admissível. No início de tarde, manifestantes de todo o país se reuniam ou marchavam contra o regime e imediatamente as forças de segurança reagiam. Então, vinha o gás lacrimogêneo, muito gás. Os manifestantes se dispersavam, se juntavam de novo e bombardeavam a polícia com pedras e coquetéis Molotov.

Às vezes, os policiais revidavam com balas de borracha, outras vezes com bolas de gude disparadas em cartuchos de espingarda. Assim que eles se retiravam, os manifestantes se reuniam mais uma vez para marchar ou bloquear estradas. Os policiais voltavam e toda a cena se repetia.

Sim, pessoas morriam. Atire uma bala de borracha contra alguém, a pouca distância. Jogue uma lata de gás lacrimogêneo bem no seu peito. Você vai matar. Até agora, 104 pessoas morreram nesse último surto de protestos, quase uma por dia. É um número alto demais, claro. No entanto, ainda está muito, muito abaixo do que poderia ser.

As forças de segurança entenderam que não podem usar munição letal. Os manifestantes, em grande parte, também evitaram a violência mortífera. Na maioria dos casos, jogam pedras, rebatem latas de gás lacrimogêneo lançadas na sua direção e usam entulho para bloquear estradas.

O bom e velho coquetel Molotov virou febre, mas, mesmo que rendam algumas fotos impressionantes nos jornais, não são especialmente letais. Em um país onde as armas são fartamente disponíveis, isso é digno de nota. 

O equilíbrio, entretanto, é precário. Relatos da oposição mostram que os manifestantes estão cada vez mais organizados, às vezes seguindo linhas quase paramilitares. Eles estão empregando táticas mais sofisticadas e aprendendo a usar fogos de artifício como armas.

Um vídeo gravado na cidade de Lechería revela que alguns grupos de oposição descobriram como transformar rojões em lançadores de projéteis. Este mês, pela primeira vez, os manifestantes usaram um explosivo improvisado contra as forças de segurança, ferindo sete soldados.

A comunidade internacional vem olhando com perigosa passividade, desdenhando da possibilidade de um conflito civil aberto. O país ainda não chegou nesse ponto: ainda estamos falando de protestos, não de guerra. Mas luzes de advertência estão piscando em toda parte. Ainda é possível chegar a uma solução negociada. Mas, sem um acordo, a Venezuela pode cair na primeira guerra civil propriamente dita do hemisfério neste século. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

É DIRETOR DO SITE ‘CARACAS CHRONICLES’ E COLUNISTA DO ‘WASHINGTON POST’

 

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