Al Drago/The New York Times
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Análise: Transição nos EUA coloca foco nos palestinos 

Decisão que condenou os assentamentos israelenses no Conselho de Segurança da ONU serve para lembrar que a questão palestina continua um barril de pólvora 

Peter Baker / The New York Times, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2016 | 05h00

Na parede do gabinete do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, há um mapa gigantesco do piso ao teto com Israel no centro. Netanyahu gosta de contemplá-lo. Ele costuma brindar os visitantes com histórias que mostram que Israel fez muitos amigos entre os países ali representados, alguns próximos, outros distantes.

Segundo ele, Israel tem avançado consideravelmente desde os dias em que o conflito com os palestinos definia as relações do seu país com o mundo. Mas embora comemore a ascensão do seu firme aliado, o presidente eleito Donald Trump, talvez Netanyahu venha a descobrir que este evento se tornou um complicador na administração da coalizão conservadora, sua principal prioridade. 

A decisão que condenou os assentamentos israelenses por 14 votos a zero no Conselho de Segurança da ONU, permitida na sexta-feira pelo presidente Obama, que  ordenou a abstenção americana, serve para lembrar que a questão palestina continua um barril de pólvora. 

Agora, em lugar de contar com novos amigos, Netanyahu conta apenas com velhos inimigos, e em um discurso pronunciado na noite de sábado em termos particularmente duros, prometeu cobrar um “preço diplomático e econômico” dos países que, na sua opinião, tentaram prejudicar Israel. 

Ele anunciou que cortará US$ 8 milhões das contribuições às Nações Unidas e  pretende reavaliar se continuará permitindo o ingresso do pessoal da organização em Israel, além de chamar de volta alguns embaixadores e cancelar as visitas dos países que apoiaram a medida. Ele acusou ainda o governo Obama, em fim de mandato, de executar uma “manobra vergonhosa contra Israel”.

“A resolução aprovada ontem pela ONU é em parte o canto do cisne do velho mundo em sua postura discriminatória em relação a Israel”, afirmou na cerimônia do Hanukkah, em que são acesas as luzes em homenagem aos soldados mortos e às vítimas do terrorismo.  “Meus amigos, estamos ingressando numa nova era, como disse ontem o presidente eleito Donald Trump, e ela chegará muito antes do que as pessoas imaginam”. 

De fato, Netanyahu terá em Trump um aliado muito mais disposto a apoiá-lo na Casa Branca do que Obama, que considera contraproducente a política dos assentamentos israelenses. Entretanto, segundo os analistas, o apoio de Trump a Israel na questão dos assentamentos, e seu propósito de transferir a embaixada americana para Jerusalém poderá suscitar mais aversão entre os países árabes sunitas que Netanyahu mais andou cortejando. 

“Não é preciso muito para imaginar uma medida dos EUA capaz de provocar a violência no país ou mesmo manifestações potencialmente violentas”, observou Tamara Cofman Wittes, ex-funcionária do Departamento de Estado americano que atualmente atua no Centro para a Política do Oriente Médio da Brookings Institution. “E isso não apenas criaria uma crise palestino-israelense, como também uma crise mais ampla árabe-israelense”. 

A eleição de Trump e sua escolha de David M. Friedman, ardoroso defensor dos assentamentos, para o cargo de embaixador em Israel, já contribuiu para pressionar pela adoção de medidas mais agressivas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia ocupada. 

Alguns chegaram a declarar que a solução dos dois Estados, durante anos considerada fundamental para o fim do conflito, está morta. Desde a eleição americana, os integrantes do gabinete de Netanyahu favoráveis aos assentamentos insistem na adoção de uma lei que legalize retroativamente os assentamentos construídos no início em zonas privadas do território palestino, e declarados ilegais pela Suprema Corte de Israel.

 Netanyahu tem relutado a esse respeito, advertindo  os colegas de que isso poderia levar a uma investigação pelo Tribunal Criminal Internacional, conforme noticiou o jornal Haaretz. 

“Os líderes israelenses usaram a pressão americana como desculpa para evitar fazer algo que, na realidade, não querem fazer, mas são pressionados a fazer pelos membros da coalizão”, afirmou Daniel C. Kurtzer, ex-embaixador americano em Israel que leciona na Universidade Princeton. Se Trump se mostrar favorável à direita de Netanyahu, “isto colocará o primeiro-ministro numa situação embaraçosa na qual não terá desculpas para não fazer o que os membros da direita exigem que ele faça”, opinou Kurtzer. 

Atualmente em seu quarto mandato, nos últimos tempos Netanyahu tem se preocupado essencialmente em conter até certo ponto o conflito palestino enquanto estabelece novos laços com outros países. 

Ele tem viajado muito. Neste momento, acaba de regressar de uma visita ao Azerbaijão e ao Casaquistão, dois países predominantemente muçulmanos – numa demonstração, segundo afirmou, da transformação das relações globais israelenses. 

Ele se gaba de que são tantas as delegações estrangeiras que chegam a Israel que ele mal tem tempo de receber todas. Até o governo de Fiji, contou, espera por uma visita sua. 

Ele atribui o fato a três fatores, que define como TTP – terrorismo tecnologia e paz. Segundo afirma, outros países consideram Israel um aliado na luta contra o terrorismo islâmico, uma fonte de inovação tecnológica e não um obstáculo para a paz, como se dizia antigamente. Entretanto, se isso for verdade, a resolução unânime da ONU deverá acabar com esta impressão. 

No discurso de sábado, Netanyahu admitiu que seu esforço para modificar o status de Israel não foi completo. “Empreendemos uma jornada para melhorar nossas relações com os outros países do mundo, mas ela levará mais tempo”, afirmou. Entretanto, previu que os amigos darão todo o apoio a Israel depois da votação na ONU. 

Na opinião dos seus críticos, nada disso acontecerá, e o fato de Netanyahu não conseguir nenhum apoio no Conselho de Segurança é um sinal de que sua campanha diplomática teve mais o objetivo de mera propaganda do que de mostrar o progresso do seu país. 

“O homem que um mês atrás afirmou que o mundo o adora, esta noite declarou guerra ao mundo, aos EUA, à Europa, e está tentando nos acalmar com a prepotência”, escreveu no Facebook Isaac Herzog, líder do partido de centro-esquerda União Sionista, que faz oposição no Parlamento. 

Para Netanyahu, o objetivo mais importante é aprimorar as relações de Israel com os vizinhos árabes, não apenas Egito e Jordânia, com os quais estabeleceu tratados de paz, mas com os países sunitas como a Arábia Saudita e outros do Golfo Pérsico. 

Embora tais países continuem manifestando claras reservas a respeito de Israel, colaboraram na surdina na convicção de que a ameaça maior é a liderança teocrática xiita do Irã. Entretanto, essa situação poderá mudar rapidamente se a questão palestina voltar a ter maior destaque. 

Saeb Erekat, o negociador palestino, disse, na semana passada, que uma decisão da embaixada poderá levar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) a retirar seu reconhecimento de Israel, concedido como parte dos acordos de paz de Oslo. Embora muitos líderes árabes estejam cansados da liderança palestina, talvez tenham de agir se seus cidadãos forem provocados e se sentirem ultrajados. 

“Se as reações nas ruas se tornarem particularmente intensas, será mais fácil para estes árabes abandonar as relações com Israel do que se colocarem no caminho da ira do seu próprio povo”, afirmou Kurtzer. 

Talvez isto explique o motivo pelo qual alguns conservadores em Israel estão nervosos com a perspectiva de Trump lançar mão de medidas provocadoras. O ministro da Defesa, Avigdor Lieberman, conhecido como defensor da linha dura, disse numa recente que há outras questões prementes, além da transferência da embaixada americana para Jerusalém, considerada por israelenses e palestinos sua respectiva capital.

Zalman Shoval, ex-embaixador do Partido Likud de Netanyau nos Estados Unidos, duvida que uma transferência da embaixada venha a provocar uma grande reação, mas disse que o fortalecimento da direita poderia pressionar pela adoção de políticas mais agressivas capazes de fazê-lo. “Se isto acontecer, criará um problema para Netanyahu”, disse Shoval.

“Netanyahu basicamente não quer anexar toda a Cisjordânia, não quer governar os palestinos. Ele tem consciência dos riscos que isso implicaria do ponto de vista de Israel”. 

No entanto, alguns aliados de Netanyahu, como o próprio Shoval, afirmam que os interesses comuns ainda são mais importantes do que explosões momentâneas do crônico conflito palestino. “Mesmo quando se forjam novas alianças, isto não significa que o país esteja em sintonia com todas as questões”, disse Dore Gold, antigo assessor de Netanyahu que recentemente deixou o cargo de diretor-geral do Ministério do Exterior. “Nos países árabes, continuam acontecendo coisas com as quais não concordamos. Mas há total sintonia em nossos interesses fundamentais”. 

Alguns analistas afirmaram que isto poderá depender de como as novas instituições forem apresentadas. Segundo Ehud Yaari, comentarista de assuntos árabes no Canal 2 de Israel, a transferência da embaixada não criará problemas graves com os países sunitas além dos protestos rotineiros. E ele acrescentou que “será muito mais difícil para a liderança sunita engolir” o fato de os americanos encorajarem a construção de assentamentos em novas áreas. 

Mesmo assim, afirmou Yaari, “a opinião pública árabe poderá obrigar os governantes a apresentarem objeções, embora aparentemente estejam aliviados com a saída de Obama e não queiram começar com o pé esquerdo com Trump”. 

Outros sugeriram que uma diplomacia mais flexível do futuro presidente americano poderá ajudar Netanyahu. Embora a direita eventualmente deva pressionar para a construção de novos assentamentos, o governo Trump poderá insistir que as novas construções sejam mantidas dentro de blocos previamente estabelecidos, disse Robert Satloff, diretor-executivo do Washington Institute para a Política sobre o Oriente Médio. “Seria uma importante vitória para Netanyahu”, afirmou Satloff. “E se estiver vinculada à suspensão de fato da expansão fora dos blocos, poderá até mesmo promover as relações israelenses com os sunitas”.  / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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