Wilfredo Lee/ AP
Wilfredo Lee/ AP

Análise: Trump achou que ação reelegeria Obama. Mas e ele?

Em meio ao risco do impeachment, o presidente americano pode estar se valendo da atual ameaça de segurança nacional, para buscar sua permanência no cargo

Aaron Blake*, Washington Post

05 de janeiro de 2020 | 06h00

Desde a controvertida decisão de matar um oficial militar iraniano de alto escalão em Bagdá, os críticos de Donald Trump lembram seus comentários antigos sobre uma política de guerra com o Irã. Em 2011 e 2012, Trump previu que Barack Obama atacaria o Irã porque era a única maneira de ele ser reeleito. O ataque nunca veio e mesmo assim Obama venceu confortavelmente. Vale a pena considerar se Trump pode estar fazendo um cálculo semelhante para si mesmo – por mais cínico que esse pensamento possa ser.

Há poucas razões para acreditar que isso ajudaria. Pesquisadores e analistas políticos costumam falar sobre um efeito de “manifestação em torno da bandeira” que ocorre quando os Estados Unidos são atacados ou lançam campanhas militares. E há algo nisso. Mas geralmente é de curta duração, e há poucas evidências de que tenha ajudado qualquer presidente recente a ganhar a reeleição.

O exemplo mais recente seria a Guerra do Iraque, que George W. Bush lançou em março de 2003. Segundo dados da Gallup, seu índice de aprovação aumentou de 58% antes da invasão para 71% imediatamente depois. Mas voltou a 58% apenas quatro meses depois e, apesar da captura de Saddam Hussein no final de 2003, na véspera das eleições de 2004, era de 48%. Quando Bush ganhou a reeleição, a guerra não foi vista como um trunfo e acabou se tornando uma marca negra em seu legado.

Após o início da Operação Tempestade no Deserto, em janeiro de 1991, a aprovação de George Bush pai subiu de 64% para 82% – e chegou a impressionantes 89%. Na época, isso afugentava potenciais adversários democratas, com uma pesquisa mostrando Bush à frente do então governador de Nova York Mario Cuomo, a então grande esperança democrata. A crise acabou em outubro de 1991 e Bush estava abaixo de 50% em janeiro de 1992, um ano após o início da guerra. Ele ficou lá até perder a reeleição para Bill Clinton.

Combine isso com a quantidade de tempo até a eleição e a imprevisibilidade da guerra com um país desenvolvido como o Irã, e a história sugere que Trump pode querer refletir sobre o quão errado ele estava em 2011 e 2012.

*É JORNALISTA

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