Washington Post photo by Jabin Botsford.
Washington Post photo by Jabin Botsford.

ANÁLISE: Trump aprende com a questão síria o quanto suas palavras importam

Quem não aprende com os erros do passado está fadado a repeti-los. É o que os Estados Unidos continuam a fazer na Síria

James Hohmann, Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2018 | 05h00

Quem não aprende com os erros do passado está fadado a repeti-los. É o que os Estados Unidos continuam a fazer na Síria.

Em 1950, o secretário de Estado, Dean Acheson, fez um discurso insinuando que a península coreana estava fora do perímetro central de defesa dos Estados Unidos. Embora não tenha sido essa a intenção, a declaração enviou um sinal de que os EUA estavam abandonando a Coreia do Sul. Isso ajudou a provocar uma guerra cujas consequências posteriores ainda são enfrentadas hoje.

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Barack Obama cometeu um dos erros mais graves de sua presidência em 2012, quando declarou que o presidente da Síria, Bashar Assad, usando armas químicas contra civis, cruzaria uma “linha vermelha” que traria “enormes consequências”. Quando centenas de pessoas foram mortas por um ataque de gás no ano seguinte, ele planejava lançar mísseis, mas evitou o confronto quando os britânicos recuaram. Depois que Obama passou a decisão para o Congresso hesitante, um Assad incentivado intensificou a selvagem campanha contra seu próprio povo.

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Há um ano, o novo governo do presidente Donald Trump anunciou que a remoção de Assad do poder não era mais uma prioridade do governo dos Estados Unidos. Logo em seguida, o homem conhecido como "o açougueiro de Damasco" lançou um ataque de gás sarin que matou mais de 80 sírios. A visão macabra de imagens de crianças assassinadas levou Trump a ordenar ataques aéreos sobre o aeroporto usado pelos aviões que lançaram o gás.

Agora avance rapidamente quase exatamente um ano. Durante uma manifestação em Ohio na quinta-feira anterior, Trump se contradisse e sabotou meses de compromissos públicos de líderes diplomáticos e militares de que os EUA não fugiriam do conflito na Síria. Falando informalmente durante o que deveria ser um discurso sobre infraestrutura, o presidente declarou: “Nós sairemos da Síria, talvez muito em breve. Vamos deixar as outras pessoas cuidarem disso agora!”

No dia seguinte, foi divulgada a notícia de que Trump suspendera mais de US$ 200 milhões em fundos de estabilização para os esforços de recuperação da Síria - para a grave consternação dos profissionais de Foggy Bottom, área de Washington onde fica o Departamento de Estado.

“Eu quero sair”, acrescentou Trump na terça-feira passada, na Casa Branca, durante uma coletiva de imprensa com líderes do Báltico. “Eu quero trazer nossas tropas de volta para casa... Está na hora.”

Esta declaração pegou os comandantes militares desprevenidos. Os principais assessores de segurança nacional persuadiram Trump a não retirar imediatamente os 2.000 americanos que estão na região, durante uma reunião no final do dia. Em seguida, eles redigiram uma declaração na Sala de Situações, projetada para tranquilizar os aliados na região. Mas para Assad e seus patronos em Moscou e Teerã, as preferências do presidente eram muito claras.

Então, na noite de sábado, pelo menos 40 pessoas foram mortas em outro aparente ataque químico em um enclave cercado por rebeldes perto de Damasco. “Mais de 500 pessoas foram levadas para centros médicos locais “com sintomas que indicavam uma exposição a agentes químicos”, segundo a Sociedade Sírio Americana de Medicina, um grupo sem fins lucrativos com sede em Washington que apoia unidades de saúde na área”, disse uma reportagem de Louisa Loveluck e Erin Cunningham, enviada da região.

"Imagens filmadas da área mostraram corpos espalhados pelo chão de um abrigo antiaéreo. Entre eles estava um jovem que parecia ter morrido despejando espuma pela boca, agarrado ao filho. Equipes de resgate no local disseram que o cheiro de cloro no quarto era quase insuportável ".

Trump escreveu num tuíte: “Se o presidente Obama tivesse cruzado sua linha vermelha declarada na areia, o desastre sírio teria terminado há muito tempo! O animal Assad seria história!"

As palavras importam, a credibilidade conta e a natureza abomina um vácuo de poder. Theodore Roosevelt disse que os Estados Unidos devem “falar suavemente e carregar um porrete”. Trump parece inclinado a fazer o oposto. Isso dilui o poder da advertência feita pelo poder. Com seus duros tuítes sobre o mais recente ataque, Trump parece estar querendo enfrentar a situação e colocar a América na linha novamente.

“Se ele se desviar de cumprir o que promete com esse tuíte, parecerá fraco aos olhos da Rússia e do Irã”, advertiu o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul. Olhando diretamente para a câmera no programa “This Week” da rede ABC, ele acrescentou: “Senhor Presidente, é preciso concretizar esse tuíte. Mostre a determinação que Obama nunca teve para acertar isso”.

Após os ataques aéreos do ano passado, o presidente deixou claro que não haveria uma escalada mais ampla ou um acompanhamento significativo. As autoridades americanas reconhecem agora que a pista destruída pelos mísseis dos EUA foi rapidamente reconstruída. Quando os líderes do Irã, Turquia e Rússia se reuniram para discutir o futuro da Síria na semana passada em Ancara, os Estados Unidos sequer foram convidados. Será que Trump vai avaliar as possibilidades de encerrar o jogo desta vez? / Tradução de Claudia Bozzo

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