REUTERS/Kevin Lamarque
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Análise: Trump corteja o voto hispânico com menções à Venezuela

Ao pressionar o chavismo, Trump se dirige aos generais que mantêm no poder o autoritário líder da Venezuela e às dezenas de milhares de expatriados venezuelanos que podem ser a chave para a vitória do presidente na Flórida em 2020

Margaret Talev / Bloomberg, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2019 | 05h00

O discurso de Donald Trump em Miami é direcionado para dois tipos de público: os generais que mantêm no poder o autoritário líder da Venezuela e as dezenas de milhares de expatriados venezuelanos que podem ser a chave para a vitória do presidente na Flórida em 2020.

As observações na Universidade Internacional da Flórida na tarde de segunda-feira, 18, no coração desta comunidade de imigrantes, chegam semanas depois que o líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se declarou presidente interino e poucos dias depois que os EUA impuseram novas sanções a cinco outros associados de Maduro. Guaidó, em 23 de janeiro, declarou-se o líder do país até que uma eleição livre possa ser convocada, pedindo aos militares venezuelanos para ajudá-lo, e dizendo que a reeleição de Maduro em 2018 foi ilegítima.

Os EUA reconheceram Guaidó e estão pressionando os militares da Venezuela para que o apoiem como parte de um esforço internacional pela saída de Maduro. Mas Maduro está apegado ao poder, apesar de o enviado de Trump para a Venezuela, Elliott Abrams, ter dito ao Congresso neste mês que o governo considera que “o atual ambiente político e econômico é insustentável e ele não poderá resistir por muito mais tempo”.

Em seu discurso sobre o Estado da União neste mês, Trump usou o exemplo de Maduro para alertar contra os perigos de qualquer tipo de socialismo, sugerindo que os democratas liberais nos EUA poderiam ameaçar o estilo de vida americano. “Renovamos nossa determinação de que os Estados Unidos jamais serão um país socialista”, disse Trump, numa mensagem de teste para sua campanha de reeleição.

O discurso de Trump em Miami será o encerramento do feriado do Dia dos Presidentes que ele passou em seu resort em Mar-a-Lago em Palm Beach e no clube de golfe nas proximidades, onde o voto dos hispânicos, incluindo expatriados venezuelanos, é um bloco chave.

Os democratas também miram o voto dos hispânicos na Flórida, especialmente entre a crescente população porto-riquenha do estado. Trump foi duramente criticado pela resposta de seu governo ao furacão Maria, em 2017, e por milhares de moradores que fugiram da ilha depois do Maria e que agora residem - e podem votar - na Flórida.

O voto venezuelano-americano pode fornecer aos republicanos um contrapeso diante das crises econômicas e humanitárias ante Maduro e a disposição de Trump de responder. Daniel Smith, catedrático de ciência política da Universidade da Flórida, disse que os registros eleitorais de 2018 mostram que os eleitores venezuelano-americanos na Flórida formam um bloco muito menor que o de eleitores cubano-americanos ou porto-riquenhos, mas são um grupo crescente com alta propensão a votar e cuja lealdade está disponível.

A Flórida é um estado onde as eleições são muitas vezes vencidas ou perdidas pelas margens mais estreitas. Dos 14 milhões de eleitores registrados na Flórida, cerca de 36 mil se identificaram como nascidos na Venezuela. A maioria vive nos condados de Miami-Dade e Broward. E 65% por cento registraram-se para votar.

Isso em comparação com 340 mil eleitores de origem cubana, auto identificados, e 210 mil eleitores dos EUA que disseram ter nascido em Porto Rico. Enquanto o voto conservador cubano-americano manteve historicamente as margens de apoio hispânico para os democratas mais apertadas na Flórida do que em outros estados, o resultado foi particularmente próximo em 2018 - apenas 54% na disputa para o governo e o Senado dos EUA, segundo pesquisas, ressaltando as preocupações dos democratas em 2020.

O governo Trump mostrou à gigante petrolífera estatal da Venezuela, Petroleos de Venezuela SA, um caminho para escapar das sanções dos EUA na sexta-feira, quando o Tesouro dos EUA disse que "analisaria a suspensão das sanções” contra aqueles que tomarem medidas concretas para “restaurar a ordem democrática” no país. Ao mesmo tempo, impôs novas penalidades a cinco dos assessores próximos de Maduro, incluindo o ministro venezuelano do petróleo e o presidente da PDVSA, Manuel Quevedo.

O Tesouro mencionou o “ex-presidente ilegítimo” Maduro em um comunicado anunciando as sanções. O senador Marco Rubio e o deputado Mario Diaz-Balart, ambos republicanos da Flórida, viajaram para a fronteira da Colômbia e Venezuela no domingo para visitar as instalações de ajuda à medida que chegam os carregamentos com recursos humanitários.

Guaidó conta com as remessas apoiadas pelos EUA para persuadir o exército de seu país a reconhecê-lo e criar uma abertura para um alívio desesperadamente necessário, ao mesmo tempo Maduro ordenou que suas forças de segurança bloqueiem suprimentos que ele diz serem um pretexto para a intervenção do governo Trump.

Garrett Marquis, porta-voz do Assessor de Segurança Nacional John Bolton, disse no domingo que os EUA destinaram quase 200 toneladas de ajuda para socorrer os venezuelanos, e a comunidade internacional prometeu mais de US$ 100 milhões em apoio à resposta de emergência. / Tradução de Claudia Bozzo

 

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