Jim Watson/AFP
Jim Watson/AFP

Análise: Trump deu o tom para o pior debate presidencial de que se tem memória

O desafio de Trump na terça-feira foi transformar a corrida de um referendo sobre sua presidência em uma escolha clara entre ele e Biden

Dan Balz*, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 08h30

Ninguém vivo jamais viu um debate presidencial como o festival de gritos e agressões de terça à noite entre o presidente Donald Trump e o ex-vice-presidente Joe Biden - 90 minutos de injúrias, interrupções e insultos pessoais. Foi uma ofensa ao público também, e um triste exemplo do estado da democracia americana cinco semanas antes das eleições.

À margem, o debate provavelmente ajudou mais Biden do que o presidente, em um momento em que Trump precisava mudar a forma e a trajetória da campanha. Mas não é disso que as pessoas vão se lembrar. Mesmo os mais aguerridos em suas escolhas provavelmente estavam desanimados com o que estavam testemunhando. Só podemos imaginar como serão os próximos dois debates entre os dois.

Durante décadas, os debates das eleições gerais deram aos americanos a oportunidade de medir os candidatos em um fórum aberto, com moderadores procurando ficar fora do caminho quando possível. Eles sempre incluíram exibicionismo e trocas de acusações afiadas, mas dentro dos limites do que as pessoas esperam de seus presidentes. Tudo isso foi pela janela na terça à noite.

O tom do debate foi estabelecido por Donald Trump nos minutos iniciais, e nunca mudou até o final da noite. O presidente constantemente ignorava os repetidos apelos do moderador Chris Wallace para manter a ordem enquanto aproveitava cada oportunidade para aborrecer Biden verbalmente, desequilibrar seu rival e ocupar o máximo de espaço possível. Era o Trump que mora no Twitter, não alguém que ocupa o cargo mais alto do país.

Biden, aconselhado a manter a calma, parecia constantemente irritado com o comportamento de Trump, respondendo às vezes com réplicas bem preparadas, mas também com rebatidas verbais desdenhosas. Exasperado em um ponto, ele replicou para o presidente: "Você pode calar a boca, cara?". Biden superou a barreira de expectativas que a campanha de Trump inexplicavelmente havia estabelecido para ele, mas difícil dizer que teve um desempenho brilhante.

O triste debate terminou apropriadamente como começou, em um momento que prenunciou um fim tumultuado e divisivo para a eleição, com Trump novamente atacando, sem evidências, a lisura da votação, dizendo que as cédulas de correio estão repletas de fraude e a eleição, portanto, será inválida.

Trump se recusou a dizer que pediria a seus apoiadores para ficarem calmos até que uma contagem final fosse validada. Em vez disso, indicou assustadoramente que planeja atiçar seus apoiadores para desafiar e contestar a contagem em todos os lugares possíveis. Ele disse que aceitaria o resultado apenas se acreditasse que a eleição foi justa.

Biden disse que aceitaria o resultado e previu que Trump também aceitaria, uma vez que os votos fossem contados, independentemente do vencedor. Possivelmente.

O presidente foi uma estrela de reality show e conhece a velocidade no palco do debate: atacar, intimidar seu oponente e ignorar as regras. Para Wallace, um entrevistador duro e habilidoso, o debate foi um pesadelo.

"Sr. Presidente! Sr. presidente ”, ele exclamou em determinado momento, quando Trump se recusou a ficar em silêncio quando Biden estava respondendo a uma pergunta. “Cavalheiros!" ele disse em outro momento enquanto os dois discutiam em voz alta sobre o ataque de Trump ao filho de Biden, Hunter.

Raros foram os momentos em que os dois indicados realmente discutiram suas diferenças com calma e clareza em um debate que abrangeu vários tópicos, incluindo a pandemia do coronavírus, a Suprema Corte, a economia, a justiça racial e a violência nas cidades americanas. Na maioria das vezes, em vez de discutirem temas relevantes para a sociedade, Trump e Biden duelavam entre si.

Julgar o debate pelos padrões tradicionais dá à noite mais crédito do que merece. Para a maioria das pessoas, isso era impossível de assistir, um momento de agarrar o controle remoto, tirar do canal que exibia um fórum que em anos eleitorais anteriores serviu bem ao país. É difícil imaginar o que mais dois debates como este farão, a não ser aumentar as tensões em um país que já está no limite.

Biden veio pronto para apresentar seus pontos e às vezes estava muito mais focado em fazê-lo do que o presidente. Em uma pergunta inicial sobre a vaga na Suprema Corte criada pela morte da juíza Ruth Bader Ginsburg, ele abordou a Lei de Cuidados Acessíveis, aborto, saúde pública e as 200.000 mortes de covid-19. Ele repetidamente rotulou Trump de mentiroso, que não sabia do que estava falando.

Trump jogou um jogo diferente, de ataque e depreciação. Ele bateu forte em Biden, especialmente na questão da lei e da ordem, uma linha de crítica preparada e consistente e que seus apoiadores provavelmente estavam aplaudindo. Ele tentou várias vezes pendurar o rótulo de socialista em seu rival, e Biden, talvez para desânimo de alguns na esquerda, fugiu de qualquer sugestão de que ele é cativo da ala liberal do partido.

Às vezes, cada um se recusava a responder a perguntas diretas sobre suas posições e propostas de política. Biden não disse se apoiaria a expansão da Suprema Corte caso ganhasse a eleição e os democratas conquistassem o Senado. Trump não respondeu a uma pergunta direta sobre se pagou apenas $ 750 em imposto de renda em 2016 e 2017, como relatou o jornal The New York Times.

Trump precisava desse debate mais do que Biden, dada a forma atual da corrida. Quatro anos atrás, ele veio para o primeiro debate com as pesquisas se estreitando e em um ano em que havia mais movimento e aparente volatilidade em sua disputa com Hillary Clinton.

Este ano, houve apenas um movimento modesto nas pesquisas, com Biden liderando firmemente com uma média de nove pontos antes das duas convenções nacionais, de acordo com a média de pesquisas do Washington Post, e agora liderando por oito pontos.

Potencialmente mais problemático para Trump é sua incapacidade de quebrar a barreira que moveria seu apoio para a casa dos 40%. Ele ficou preso nas médias das pesquisas em algo em torno de 43% ou 44% desde o final da primavera, enquanto Biden ficou em torno de 50% ou mais desde o início do verão passado.

O desafio de Trump na terça-feira foi transformar a corrida de um referendo sobre sua presidência em uma escolha clara entre ele e Biden. Esse é o objetivo de qualquer presidente em exercício, mas especialmente deste presidente, que usou seu cargo para se colocar na frente e no centro de todas as maneiras que pode, mas de maneiras que agora o estão prejudicando politicamente.

Biden pode ter perdido oportunidades, mas seu único objetivo real era não fazer nada para mudar a corrida. Nesse objetivo mínimo, ele conseguiu. Mas não é isso que será lembrado na noite de terça-feira. Será o grau em que a própria democracia sofreu e poderia sofrer mais à medida que as eleições chegassem ao fim.

Esta foi considerada a eleição mais importante em gerações - alguns dizem na vida do país. Mas não é isso que as pessoas que sintonizaram a CNN viram. Os partidários chamarão vencedores e perdedores conforme os vêem, e esses julgamentos serão previsíveis. Coletivamente, esta não foi uma noite vitoriosa para os Estados Unidos. Aliás, foi exatamente o oposto.

*Dan Balz é correspondente político desde do Washington Post desde 1978; foi editor nacional, editor político e correspondente da Casa Branca

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