Tom Brenner/Reuters
Tom Brenner/Reuters

Análise: Trump e a nova era da militância de extrema direita

Aos olhos do presidente e de seus apoiadores, suas manobras fazem parte de uma reação justificada dos cidadãos às cenas de tumulto que se seguiram a mais um episódio em que policiais atiraram contra um homem negro

Ishaan Tharoor / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 19h46

WASHINGTON -  O caminho do presidente Donald Trump para a reeleição passa por um campo de batalha – dentro do país, não no exterior. No fim de semana, ele aplaudiu as ações de grupos armados de extrema direita que apoiam o presidente e se espalharam por várias cidades dos Estados Unidos nos últimos dias para enfrentar os manifestantes.

Aos olhos do presidente e de seus apoiadores, suas manobras fazem parte de uma reação justificada dos cidadãos às cenas de tumulto que se seguiram a mais um episódio em que policiais atiraram contra um homem negro, desta vez na cidade de Kenosha, Wisconsin, em 23 de agosto.

Trump acredita que conseguirá associar o caos à improvável figura de Joe Biden, político centrista e defensor do establishment de Washington. “Houve uma escalada da violência quando Trump passou a usar os protestos por justiça social como um instrumento de campanha, tentando ligar Biden a elementos ‘radicais’ da esquerda”, relataram meus colegas do Washington Post.

“Louco para desviar o debate político das crescentes mortes e prejuízos econômicos da pandemia, Trump atacou implacavelmente os prefeitos e governadores democratas por não reprimirem os protestos e despachou autoridades das forças de segurança federais para as cidades, com o objetivo de ajudar a prender os manifestantes."

Mas foi a intervenção de vigilantes autoproclamados nos conflitos – em alguns casos, instigados por Trump – que agravou a crise. Em Kenosha, um adolescente de extrema direita que viajara de outro Estado até a cidade é suspeito de matar dois manifestantes. No fim de semana, uma caravana de apoiadores armados de Trump tomou a cidade de Portland, Oregon, na costa oeste, e se envolveu em confrontos com manifestantes de esquerda. Um homem – ao que parece, um manifestante de direita – foi baleado e morreu em decorrência do ferimento. O suposto atirador se autodenomina “antifa” nas redes sociais.

“Ambos os incidentes geraram reclamações de que as autoridades locais foram cúmplices da violência, porque toleraram a presença desses justiceiros autoproclamados, sem uniformes, sem treinamento e com responsabilidade limitada”, relataram meus colegas Joshua Partlow e Isaac Stanley-Becker. “Os motivos alegados por esses vigilantes, que, uma vez reunidos nas ruas, ficam praticamente indistinguíveis uns dos outros, vão de proteger as vitrines das lojas e a liberdade de expressão até promover a supremacia branca e provocar a guerra civil."

Os EUA têm uma longa e sombria história de violência de vigilantes contra comunidades minoritárias e manifestantes antigoverno, às vezes possibilitada pela cumplicidade da polícia. No clima polarizado do país sob o presidente Trump, algumas pessoas de extrema direita já estão celebrando como heróis essa nova geração de voluntários extremistas. “Mesmo que o sistema jurídico criminal consiga pegar os vigilantes e membros de milícias, eles podem esperar uma onda de aprovação vinda da direita, com (o âncora da Fox News) Tucker Carlson armando sua defesa e com a arrecadação de fundos de centenas de milhares de dólares que vem junto com tudo isso”, escreveu Melissa Gira Grant, da New Republic.

Ex-agentes do FBI e outros pesquisadores alertam para a crescente radicalização da supremacia branca entre policiais de alguns departamentos de polícia e gabinetes de xerifes. Neste verão, enquanto Trump se enfurecia contra a ameaça representada por manifestantes antifascistas, o escrutínio também recaiu sobre o movimento de extrema direita boogaloo bois, uma mobilização online de extremistas armados que vêm marcando presença em comícios de Trump e já estão ligados ao assassinato de um policial e a planos para explodir bombas em protestos pacíficos.

“Se o presidente Trump perder a eleição, alguns extremistas talvez recorram à violência, porque vão acreditar – ainda que equivocadamente – que houve fraude ou que a eleição do candidato democrata Joe Biden irá minar seus objetivos extremistas”, alertou um relatório do Center for Strategic and International Studies, um think tank com sede em Washington, no início deste verão.

“Os números são esmagadores: a imensa maioria da violência vem da extrema direita”, disse a meus colegas Clint Watts, ex-agente do FBI que estuda atividades políticas extremistas para o Foreign Policy Research Institute.

Ao longo de sua tumultuada presidência, o nativismo destrutivo de Trump ecoou nos manifestos e nas mensagens de vários atiradores de extrema direita que mancharam as mãos de sangue, desde uma sinagoga na Pensilvânia até uma mesquita na Nova Zelândia. Teorias da conspiração de extrema direita, como o movimento QAnon, que se desenvolveram sob sua guarda – e que o presidente parece incapaz de negar – cruzaram o Atlântico e agora estão sendo adotadas na Europa.

Combater com eficácia

No sábado, um grupo de extremistas de direita que se juntara a uma marcha mais ampla em Berlim contra as restrições impostas pelo governo durante a pandemia tentou invadir o parlamento alemão, o Reichstag. “Os violentos tumultos do sábado mais uma vez deixaram bem claro que o extremismo de direita tem raízes profundas em nossa sociedade”, disse o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier. “Trata-se de um perigo sério e nossa tarefa importante e contínua é descobrir essas redes nos estágios iniciais, a fim de combatê-las com eficácia.”

Mas, pelo menos na Alemanha, esses agitadores continuam sendo uma ameaça marginal. Nos Estados Unidos, eles são acariciados pelo homem mais poderoso do país. “Trump está explicitamente fazendo uma campanha baseada na lei e na ordem, mas sem o estado de direito, o que tem implicações terríveis”, observou Greg Sargent, colunista do Post, apontando para a hipocrisia de um presidente que arrasta uma miríade de casos de suposta criminalidade e agora se veste com o manto do lei. “Por isso, Trump não é o candidato da lei e da ordem, mas sim o candidato da violência arbitrária, dos abusos do poder sem lei e do colapso civil."

Essa ideia de colapso cívico nos Estados Unidos agora parece terrivelmente real. “No passado, grupos que se sentiam privados de direitos começaram a protestar, em uma tentativa pacífica de persuadir elites bem-intencionadas ou instituições beneficentes a expandir a democracia”, escreveu Franklin Foer na Atlantic. “Mas, na visão de mundo de Trump, essas elites e instituições estão conspirando contra ele. Ao deslegitimar o sistema político americano, ele deu a seus seguidores a impressão de que as pessoas não têm alternativa a não ser se afirmar por meios não políticos”.

“Não acho que muitos americanos entendam como a democracia é frágil”, disse a meus colegas Raul Torrez, promotor distrital democrata no Novo México que vem tentando restringir as ações de uma milícia de extrema direita local. “Um dos primeiros sinais de risco à democracia é quando as pessoas decidem que não vão mais tratar de suas diferenças políticas nas urnas – nem nas legislaturas eleitas, nem no Congresso – mas que vão fazer isso nas ruas e com armas”./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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