Juan Barreto / AFP
Juan Barreto / AFP

Análise: Trump e a perspectiva de um golpe de Estado

Maduro e seus aliados já sofreram vários ataques levados a cabo por soldados renegados; mas, em vez de abrandar seu poder repressivo, ele agiu com mais dureza

Ishaan Tharoor* / THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2018 | 06h00

Há mais de um ano, analistas sugerem que o sucessor de Chávez, Nicolas Maduro, é vulnerável a um golpe. Maduro e seus aliados já sofreram vários ataques levados a cabo por soldados renegados. Mas, em vez de abrandar seu poder repressivo, ele agiu com mais dureza, realizando um expurgo dentro do Exército.

Segundo colegas do Washington Post, membros do governo dos EUA se reuniram com oficiais militares venezuelanos dissidentes que estavam tramando um golpe. O pedido dos venezuelanos por ajuda em segredo foi rechaçado, especialmente porque os americanos não estavam convencidos das suas alegações.

Mas os novos detalhes, reportados primeiramente pelo New York Times, foram mais do que suficientes para Maduro. “Nós já denunciamos antes para o mundo os planos de intervenção dos EUA”, disse no Twitter o ministro venezuelano do Exterior Jorge Arreaza. A Casa Branca se apressou para conter as especulações de que pretendia intervir no país. 

Mas o presidente Donald Trump tem representado muito bem o papel do intimidador hegemônico americano. Ele levantou a possibilidade de uma “opção militar” na Venezuela, retórica que fez os alarmes soarem no continente, familiarizado com intervenções americanas. Ele acenou com a possibilidade de uma invasão não só para seus assessores próximos, mas para líderes latinos. 

Mesmo se uma aventura como essa estivesse em gestação, as novas revelações sugerem que os aliados de Washington dentro da Venezuela, infelizmente, não tinham condições de levá-la a cabo. “O principal pedido dos idealizadores do complô militar foi de rádios com sinal criptografado, que planejavam usar para se comunicar entre si com a finalidade de capturar Maduro”, segundo o Times

Numa era de smartphones e aplicativos codificados, o pedido de aparelhos de rádio foi considerado um absurdo por outros observadores venezuelanos. “É mais uma lembrança de que os envolvidos do alto escalão militar e nossos supostos salvadores não são tão criminosos, mas são estúpidos”, escreveu Francisco Toro, do blog Caracas Chronicles

“Não tem sentido apoiar um golpe militar na América Latina, mas vale a pena ouvir essas pessoas”, disse Adam Isacson, da sucursal do Washington Post para a América Latina. “Qual é o nível de descontentamento? Eles têm apoio da população? Eles têm um plano honesto? O Exército é uma caixa preta”. A ironia no momento é que o próprio Trump tende a seguir por um caminho obscuro, mesmo quando seu governo quebra a cabeça para saber como confrontar um regime destrutivo e desestabilizador na Venezuela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É JORNALISTA

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