Christian Hartmann/Pool/AFP
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Análise: Trump e Europa têm uma surpreendente inversão de papéis

A paisagem mutante da Europa – com um presidente ambicioso na França, uma líder “pato manco” na Alemanha e um populista separatista no Reino Unido - é a responsável pelo revés

Mark Landler, New York Times

05 de dezembro de 2019 | 07h00

O presidente Donald Trump sempre gostou de fustigar os líderes europeus, antagonizar aliados, abraçar insurgentes e instigar uma disputa de como lidar com a situação. Agora, à medida que a Europa passa por mudanças políticas estonteantes, Trump parece cambaleante.

Em Londres, para uma reunião de cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Trump foi submetido a um raro ataque verbal feito pelo presidente da França, Emmanuel Macron. Sem tentar tornar o clima mais ameno, Macron soltou um: “Vamos ser sérios”.

Para um presidente que se orgulha de ser o “grande polemista”, foi uma reviravolta surpreendente, que sublinhou como a paisagem mutante da Europa – com um presidente ambicioso na França, uma líder “pato manco” na Alemanha e um populista separatista no Reino Unido – confundiu o presidente dos EUA. 

Por enquanto, pelo menos, Macron substituiu a chanceler alemã, Angela Merkel, como principal antagonista de Trump no continente. A recente afirmação do presidente francês de que a Otan estava “em um estado de morte cerebral” enfureceu Trump e Merkel e criou um improvável alinhamento entre os dois líderes que passaram boa parte dos últimos três anos em polos opostos.

Quanto a Boris Johnson, o primeiro-ministro britânico, seu aliado mais natural, Trump prometeu não opinar sobre a eleição no dia 12. “Não quero complicar”, disse Trump, admitindo que é tão impopular no Reino Unido que um endosso total a Johnson poderia sair pela culatra.

Desde que Trump tomou posse, os europeus têm trabalhado para se ajustar a seus preconceitos e preferências. Eles o elogiaram por seu sucesso em pedir aos membros da Otan que aumentassem seus pagamentos à aliança, o agradaram com convites para desfiles militares, como Macron, e sofreram com os ataques verbais de Trump aos superávits comerciais com os Estados Unidos, como Merkel.

Mas a Europa também está mudando, com o Reino Unido tentando sair, Merkel chegando ao fim de seu mandato e Macron querendo ser a nova liderança. Suas críticas à Otan são, indiretamente, um ataque à política do “America first”.

Da mesma forma, a nova discrição de Trump sobre a política britânica provavelmente durará apenas até o dia 12. Se Johnson obtiver a maioria parlamentar e tirar o Reino Unido da União Europeia, estará mais dependente do que nunca de seu relacionamento com Trump, principalmente desde que vendeu o Brexit com a promessa de que poderia fazer um acordo comercial lucrativo com os EUA. 

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