Alex Brandon/AP
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Análise: Trump mostra que não vai poupar Brasil para fortalecer discurso eleitoral

Máxima de 'amigos, amigos; negócios a parte' é levada à sério na diplomacia americana e País já recebeu esse alerta

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 04h00

A máxima de "amigos, amigos; negócios a parte" é levada à sério na diplomacia americana e, no governo Trump, ganha um componente extra: aliados poderão ser rifados não apenas se atrapalharem a economia, mas também - e principalmente - se estiverem no caminho para a reeleição do republicano. O Brasil já recebeu esse alerta, quando acordou em dezembro com a ameaça via Twitter de que os EUA iriam impor tarifas ao aço do País - um aceno ao eleitorado rural de Trump.

Com maus resultados nas últimas pesquisas eleitorais e em meio uma pandemia, Trump tem dado o sinal de que usará todas as ferramentas a seu alcance para fortalecer o discurso de que deu a resposta certa para conter o coronavírus. Os recados recentes são de que, se preciso, o Brasil não será poupado a despeito de todos os afagos feitos pelo governo Bolsonaro a Trump nos últimos 16 meses e das declarações públicas de apoio à reeleição do americano. 

Em três dias, Trump falou três vezes sobre o Brasil sem ter sido provocado em nenhuma delas. Aos tradicionais elogios ao "amigo" brasileiro, se somaram preocupações com o número "muito alto" de mortes no País. Em uma das situações, o americano chegou a perguntar ao governador da Flórida se ele desejava banir os voos do Brasil e se colocou à disposição para adotar a medida se necessário. Depois da fala de Trump, o governo brasileiro correu para tentar desfazer o mal estar e evitar ser pego de surpresa, enquanto a diplomacia americana botou panos quentes. 

Em plena campanha eleitoral, Trump se vê sob o escrutínio público por ter demorado a agir e comanda o país com maior número de mortes do mundo. Sua plataforma eleitoral fundada no bom sucesso da economia foi posta em xeque pela recessão global que veio como consequência do coronavírus e os 30 milhões de americanos desempregados no último mês e meio.

A estratégia do americano tem sido, primeiro, a de jogar a responsabilidade pelas mortes e desemprego em outros. No primeiro caso, para a China, quem acusa de demorar a informar sobre a gravidade da contaminação. No segundo, aos governadores, que estão incumbidos de decidir o momento de afrouxar o isolamento nos Estados.

Em outra frente, Trump vai construindo a narrativa de que adotará qualquer medida necessária para defender os interesses (leia-se: empregos) americanos e de que os EUA se saíram melhor do que outros países desta crise. As menções recentes ao Brasil entram nesta categoria. 

Dentro do governo americano, a avaliação na quarta-feira era de que a conversa com o governador da Flórida deveria ser lida como a oferta de ajuda de um presidente a um Estado, e não como uma ameaça ao Brasil. O Estado em questão elegeu Trump em 2016, depois de votar pelo democrata Barack Obama duas vezes.

Para o cientista político e pesquisador da Universidade de Harvard Hussein Kalout, o tom de Trump ao se referir ao Brasil mostra que o País não é uma prioridade estratégica para os EUA. "Se o Brasil fosse de fato um país que fosse parte da primeira página das prioridades americanas, Trump não teria dito isso. A dimensão do olhar dele para o Brasil não opera na mesma frequência que o Brasil olha para o norte do Hemisfério Norte", afirma Kalout.

Em outras duas ocasiões, Trump comparou a situação do Brasil à da Suécia, um país o qual Trump disse estar "pagando um preço alto" com mais mortes do que os vizinhos por não ter adotado um 'lockdown'. Antes e depois dos comentários sobre a Suécia, Trump  afirmou que "os EUA tomaram a decisão correta".  Ao tratar do país europeu, Trump indica que usará eventuais exemplos mal sucedidos de combate ao vírus para dizer ao público doméstico que ele, sim, diferente de outros, acertou a mão. Até agora, o americano poupou de críticas o "amigo" Bolsonaro, que tem apontado por analistas internacionais como o pior líder na condução da crise. Na sexta-feira, perguntado sobre o Brasil, disse que o País foi atingido com força pela pandemia, mas que Bolsonaro faz um bom trabalho.  Em Mar-a-Lago no início de março, Bolsonaro disse a Trump que se inspirava no americano, o que comprovou dias depois ao levar da Flórida o discurso do presidente dos EUA de que a pandemia estava superdimensionada (além de 20 integrantes da comitiva infectados). Mas, sem acompanhar os movimentos rápidos do americano e com o aumento no número de mortes, o governo brasileiro corre o risco de ser o próximo exposto nas coletivas de imprensa da Casa Branca como exemplo de insucesso.

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