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ANÁLISE: Ação de Trump atinge população, mas não deve abalar regime

Decisão de presidente americano é uma tentativa de forçar os iranianos a negociar um novo acordo que inclua o projeto nuclear e os mísseis balísticos do país, mas medida pode não funcionar

Ishaan Tharoor / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 05h00

Com base nos termos do acordo nuclear assinado em 2015 por Teerã e as potências mundiais, os Estados Unidos concordaram em abrandar as sanções contra aquele país. Mas o governo Trump decidiu restabelecê-las, com o primeiro bloco implementado nesta segunda-feira, 6, tendo por alvo uma série de setores econômicos, incluindo o automotivo, de ouro, aço e outros metais chave. Depois de 90 dias, um novo lote de sanções ainda mais duras atingindo o setor petrolífero iraniano será restabelecido.

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Este já era um fato consumado desde maio quando o presidente americano decidiu oficialmente romper com os compromissos assumidos no acordo nuclear. Ele rejeitou as avaliações dos monitores das Nações Unidas, que afirmaram repetidamente que o Irã vem cumprindo o determinado no acordo que limitou rigorosamente suas atividades nucleares. Trump também descartou os apelos feitos por inúmeros aliados europeus que desejavam preservar o que consideram um acordo de não proliferação bem sucedido e obtido com muito esforço. Agora as tentativas dos europeus para proteger suas empresas que ainda desejam realizar negócios no Irã – e por isto se arriscam a sanções por parte dos Estados Unidos – estão enfraquecendo. 

A chance de as empresas se defrontarem com “sanções secundárias” por parte de Washington aumentará as tensões entre os Estados Unidos e seus aliados ocidentais; várias empresas européias de energia já reduziram ou encerraram totalmente suas operações no Irã. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamad Zarif, afirmou nesta segunda-feira, 6, que as ofertas de Trump são um “espetáculo de propaganda”. Em sua conta no Twitter, Zarif escreveu: “Irã & EUA conversaram por dois anos. Com UE/+Rússia+China; produzimos um acordo multilateral excepcional. Está funcionando. Os Estados Unidos só devem se culpar por sair e deixar a mesa de negociação. Ameaças, sanções e estratégias de relações públicas não funcionam. Procurem respeitar os iranianos e os compromissos internacionais”.

No Irã, a perspectiva de um retorno das sanções provocou uma forte queda do rial iraniano. O presidente Hassan Rouhani se voltou para os radicais do país que o ridicularizaram e também o acordo que ele ajudou a construir. No final de semana, o Exército iraniano realizou exercícios navais no Estreito de Hormuz, uma via marítima crucial para o transporte global de petróleo.

O acordo nuclear ofereceu uma abertura do Irã para o Ocidente depois de anos de tensões e um isolamento cada vez profundo. Mas agora que essa janela vem se fechando, a liderança teocrática do país retoma seu discurso de “resistência” e autossuficiência que galvanizou o regime por quase quatro décadas. Um retorno instigado por Trump, que assumiu a presidência prometendo desfazer todas as realizações diplomáticas do seu predecessor.

“A eleição de 2016 nos Estados Unidos colocou em dúvida a persistência do acordo e no final levou ao pior resultado possível”, disse Farid Dehdilani, assessor de assuntos internacionais da Iranian Privatization Organization, agência do governo, à France Press.

Membros do governo Trump e conservadores mais radicais em Washington acham que as sanções irão pressionar ainda mais a República Islâmica e debilitar o regime. No fim de semana Trump mencionou exultante as notícias sobre protestos ocorridos no Irã – e o secretário de Estado Mike Pompeo também defendeu a decisão de restabelecer as sanções. “Toda a agitação vai forçar ainda mais o Irã a negociar um novo acordo.

Pelo Twitter, Trump disse que “o Irã, e sua economia, estão piorando, e rápido! Se eu me encontrarei com eles, ou não, não importa – isto cabe a eles”. Os analistas não estão tão confiantes. “Trump insinua que está: 1) estimulando o descontentamento popular, mas: 2) deseja jogar os iranianos na fogueira para firmar um acordo com seus líderes”, escreveu no Twitter Karim Sadjadpour, especialista em Irã no Carnegie Edowment for International Peace. “Na realidade as demandas iranianas por dignidade social, política e econômica já existiam antes de Trump. Ele não pode nem ajudar e nem extinguir essas aspirações”.

Além disto, apesar das dificuldades cada vez maiores, o regime não está em vias de desmoronar. Segundo especialistas, o retorno das sanções é menos asfixiante do que aquelas em vigor antes do acordo nuclear ser assinado. E embora os parceiros europeus estejam se curvando à pressão da Casa Branca, mesmo relutando, importadores chave de energia iraniana, como Índia e China, podem não acatar a decisão de Washington com tanta facilidade.

“A China anunciou que provavelmente continuará a importar petróleo do Irã, mesmo depois de os Estados Unidos cortarem a zero as vendas de petróleo iraniano”, escreveu Dina Esfandiary e Ariane Tabatabai no Foreign Affairs. Pequim também pretende ampliar sua cooperação com o Irã por meio do seu ambicioso projeto de infraestrutura global conhecido como Um Cinturão, Uma Estrada, como também investimentos no setor de energia nuclear do Irã. “Hoje, à medida que Washington procura mais uma vez pressionar o Irã, Teerã considera crucial sua relação com Pequim para se equilibrar financeiramente”, afirmaram as analistas, acrescentando que “o envolvimento chinês com o Irã pode abrir caminho para outros, o que irá abalar a nova campanha de pressão dos Estados Unidos”.

Nada disto será auxiliado pela disputa comercial do governo Trump com a China. “Impor sanções asfixiantes contra o regime iraniano sem manter uma relação de colaboração com a China vai ser muito difícil”, afirmou Jarrett Blanc, ex-membro do Departamento do Estado que participou das discussões que levaram ao acordo com o Irã durante o governo Obama. “Não há dúvida que os Estados Unidos podem causar danos à economia do Irã”, acrescentou, mas alertou que o Irã não está menos resistente do que estava nos anos anteriores à assinatura do acordo nuclear.

Meu colega Jason Rezaian, que foi correspondente do The Washington Post em Teerã quando o acordo nuclear foi assinado, escreveu sobre as imensas dificuldades vividas pelos iranianos por causa das sanções. Aumentos de preços, redução da oferta de medicamentos de emergência, os iranianos da classe média e operária sofrendo e as elites ligadas ao regime cada vez mais ricas com suas operações no mercado negro. Mas isto não deve deixar mais otimistas aqueles que, em Washington, estão propondo uma mudança de regime, disse ele. Os líderes iranianos sabem como se defender e preservar o poder, mesmo quando a inquietação da sociedade aumenta.

“A luta pela sobrevivência diária tornará a organização política mais desafiadora do que já é. Os protestos ainda não são um movimento de massa”, escreveu Rezaian. “Eles são demandas legítimas e variadas de pessoas que estão vivendo sob o peso de uma imensa pressão”. Trump está somente aumentando essa pressão. / Tradução de Terezinha Martino

 

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